Petit Paris

O que me intriga até hoje é o fato de não ter encontrado até o momento, nenhuma iconografia do tão conhecido bar e restaurante Le Petit Paris, ponto de encontro de eminentes jornalistas, escritores e políticos e onde muitos músicos brasileiros agora famosos iniciaram suas carreiras. Enquanto continuo em busca da tão esperada foto, transcrevo uma matéria jornalística, publicada em 7 de outubro de 1973, no Jornal do Brasil(?), relatando a demolição do prédio, reduto dos boêmios por tantos anos:

Petit é demolido, levando história de muita música

Alcebíades da Silva, um servente improvisado, que chegou há 10 dias do interior sem saber ler nem escrever, é a última imagem da vida, que, atuando também como vigia dos escombros, o que resta do prédio nº 139 da praia de Icaraí, onde está sendo demolido o restaurante Le Petit Paris, que viu crescer Sérgio Mendes, MPB-4 e se despediu de Ciro Monteiro.

O local foi adquirido por um grupo imobiliário que, embora não tenha ainda definido o que vai construir, agiu por força do progresso que invade a Zona Sul de Niterói. José Augusto Tanus – o Canela – o mais assíduo frequentador e ex-proprietário do Petit, guarda como lembrança um velho piano de Sérgio, um violão de Ciro “e a saudade do falsete de Agostinho dos Santos, companheiro de muitas noitadas.”

O restaurante Le Petit Paris, que já funcionou também como bar, boate e local de pocket-show, nasceu de uma iniciativa de dois comerciantes: Rubens Ferrah e o francês Raimond, no ano de 1957, transformando-se, logo no início, em ponto obrigatório de encontro de jovens moradores do bairro e, como encerramento de noite, dos boêmios, musicistas e compositores.

Passou a ser também local preferido por estudantes universitários, professores e políticos para debates e discussões dos assuntos da atualidade. Depois que o Brasil conquistou o Campeonato Mundial de 58, os jogadores que, até então frustrados, atuaram na Copa de 54, sobretudo Zizinho, passaram também a fazer ponto no Petit.

REVELAÇÕES

Sem mesa definida para participar dos papos, apesar de ser relacionado com todos os grupos, naquela época, um jovem apelidado por seus amigos de Serginho Bló-Bló tentava se definir na música popular, interrompendo, às vezes inoportunamente, muitas conversas com uma batida melódica, do tipo telecoteco, num piano muito pouco usado, num canto do restaurante.

Era o talento do Sérgio Mendes que já se revelava sem que ninguém pudesse definir as perspectivas de seu sucesso. Foi um período passageiro, porque alguns anos depois ele embarcava para os Estados Unidos levando a imagem de sua origem, um eterno jovem. Com ele seguiu o Tião, um baterista persistente.

OUTRO SUCESSO

Nem sempre nos papos sobre música popular os grupos chegavam a uma conclusão, como foi o caso dos componentes do Trio Itaipu, formado por três rapazes universitários – Gilberto, Gerardo e Rui – para promover serestas pela cidade. Rui queria uma vocalização mais moderna e se desligou do grupo, unindo-se a Waghabi, Miltinho e Aquiles. Surgia o quarteto MPB-4.

Já demonstrando algum talento, o conjunto vocal ainda fazia apresentações sem despertar interesse comercial entre os empresários cariocas que apareciam em Niterói. Somente após o primeiro contrato remunerado, para apresentações noturnas no Petit, foi que o MPB-4 deu o impulso inicial para o sucesso. Os jornalistas que frequentavam o restaurante cuidaram de  sua promoção. Até o cronista Sérgio Porto sugeriu a mudança de nome “porque parece mais prefixo de trem da Central”.

OUTRA FASE

Depois de passar por vários proprietários, o Petit teve, no período de 1969/70 uma fase ruim. Seu então proprietário, Roberto Lacerda, conhecido por Andarilho, não teve outra alternativa senão, através de Zizinho, conseguir a presença de Ciro Monteiro, quase que todas as noites, para atrair pessoas de todas as gerações.

O Formigão não tinha muito trabalho: era só sentar numa mesa qualquer e dizer seus sambas, ritmados numa caixa de fósforos. A casa voltou a encher e o movimento atraiu outros artistas, como o Agostinho dos Santos, Cláudia, Chico Buarque, Helena de Lima, entre muitos outros. O restaurante tornou a mudar de dono, mas Ciro Monteiro não deixou de frequentá-lo até seu fechamento, em dezembro do ano passado [1972].

UMA SURPRESA

Agostinho dos Santos, além de se apresentar cantando, periodicamente participava das peladas que os bares noturnos promoviam na areia da praia após o encerramento das atividades. Um dia ele levou ao Petit um moreno acanhado, mineiro do Chapadão, sem dinheiro e com medo do barulho e da poluição. Agostinho pagou-lhe o jantar e deu Cr$ 15 para ele alugar uma roupa a fim de se apresentar no Festival da Canção.

O cantor reuniu seus amigos num galpão nos fundos do restaurante para a apresentação de seu convidado, revelando que ele havia inscrito três músicas no festival. o caipira não queria cantar temendo que alguém roubasse suas composições. No dia do festival estourou: Travessia, Morro Velho e Maria Minha Fé. O convidado de Agostinho era Milton Nascimento.

O FIM

Já em meados do ano passado, o Canela, então proprietário do Petit, recebera uma notificação do dono do imóvel, Sr. João Martins dos Santos Filho, que havia sido feita uma transação no imóvel alienado ao grupo da Imobiliária Paz Limitada. Advertia que a sua desocupação teria de ser feita até o final do ano.

E foi. O prédio ainda ficou, até o início dessa semana abandonado, só restando a lembrança da boa época em que, como casa comercial recebeu a presença de tantas pessoas que se projetaram nacional e internacionalmente. Agora, os operários, colaboradores do progresso acabam de demoli-lo. No local tanto poderá surgir um grande supermercado como pode ser erguido mais um prédio para abrigar a demanda populacional que atinge o mais aristocrático bairro de Niterói.”

(Texto apresentado na reunião semanal do Rotary Club de Niterói Icaraí de 12/4/2017)

*Foto de capa: anúncio do Bar e Restaurante Le Petit no jornal Última Hora, de 9 de setembro de 1963)

 

Recorte do jornal com a matéria acima, datado de 7 de outubro de 1973.

 

Galeria
(Clique sobre as fotos para ampliar. Recortes de diversos jornais em diversas épocas.)

 

 

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