Vital Brazil

Área: 0,5 km2
População: 3064 habitantes (IBGE 2000)

O bairro limita-se com São Francisco, Icaraí e Santa Rosa — sendo um prolongamento destes dois últimos. A área do Vital Brazil compreende pequena planície, cortada por pequenos rios que desembocam no rio Icaraí; e por encostas do Morro do Cavalão. A parte mais baixa era alagadiça, formando charcos, até que a canalização dos rios tornou possíveis as edificações no local.

Esta área outrora pertenceu às fazendas Santa Rosa e Cavalão, sendo que ao longo do tempo essas terras foram vendidas e parceladas, datando do final da primeira metade do séc. XX o processo de ocupação e formação do bairro.

O fato responsável pela denominação do lugar foi a transferência do Instituto Vital Brazil, que funcionava em Icaraí, para “instalações melhores” no bairro, numa grande área onde funcionara uma olaria (1919). O importante trabalho desenvolvido pelo Instituto, hoje estadualizado, sempre recebeu amplo apoio dos governos estadual e municipal. Inicialmente o Instituto limitava-se à fabricação de medicamentos para uso humano (soros antiofídicos e vacina antirrábica), mas a partir de 1931 já preparava vacina antirrábica para uso veterinário e outros produtos do gênero. Em 1943 foram inauguradas as atuais instalações do Instituto, contribuindo para a diversificação de suas atividades e reconhecimento internacional do seu trabalho. Anexa ao Instituto, foi criada a Faculdade de Veterinária, hoje pertencente à Universidade Federal Fluminense.

O processo de ocupação ocorreu principalmente na segunda metade do séc. XX, intensificando-se nas últimas décadas, sobretudo pela ação de loteamentos (como por exemplo, o Jardim Icaraí) e pela cessão de terras do Instituto aos funcionários, para que construíssem suas moradias. Até alguns anos atrás as poucas casas do bairro eram entremeadas por inúmeros terrenos baldios.

Na área do Instituto, havia pastos (criação de cavalos por exemplo), sendo muito cobiçada, gerava conflitos, às vezes violentos, entre a Direção do Instituto (Dr. Vital Brazil) e invasores. Somente aos funcionários era permitida a construção, mas como não havia controle do poder público, as invasões foram acontecendo.

(Fonte: Niterói-Bairros – Secretaria Municipal de Desenvolvimento, Ciência e Tecnologia de Niterói – 1991, via Cultura Niterói)

O bairro em 1950, com o Instituto Vital Brazil ao fundo.

 

 

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Pé Pequeno

Área: 0,34 km2
População: 3841 habitantes (IBGE 2000)

Tendo como limites Santa Rosa, Cubango e Fátima, o Pé Pequeno é um dos menores bairros de Niterói.

A origem do nome está associada ao surgimento do bairro. Quando a antiga Fazenda Santa Rosa (séc. XVIII) que dominava vasta região começou a ser desmembrada entre os seus herdeiros, a maior área ficou em poder de Antonio José Pereira de Santa Rosa Jr., conhecido também por Pé Pequeno. Este, por sua vez, vendeu parte das terras situadas à esquerda da antiga estrada do Calimbá (atual Dr. Paulo Cézar), logo transformadas em chácaras. Com o passar do tempo, as chácaras do Pé Pequeno, que abrigavam famílias de nível econômico elevado e alguns dos nomes ilustres do município, foram revendidas e loteadas. Abriram-se novas ruas e foram construídas novas residências.

Em meados da década de 40 começa a construção de várias casas no local, sendo as ruas saneadas e pavimentadas pouco a pouco, desenhando a atual configuração do bairro.

Embora até meados deste século o Pé Pequeno tenha acompanhado os mesmos processos de urbanização que deram origem a Santa Rosa, o bairro conseguiu resguardar-se de certa forma da explosão imobiliária que levou o vizinho a intenso processo de verticalização. O Pé Pequeno conseguiu manter-se como bairro horizontal de “status” eminentemente residencial.

(Fonte: Niterói-Bairros – Secretaria Municipal de Desenvolvimento, Ciência e Tecnologia de Niterói – 1991, via Cultura Niterói)

 

 

Santa Rosa

Área: 3,06 km2
População: 27038 habitantes (IBGE 2000)

Limitando-se com Icaraí, Fátima, Pé Pequeno, Cubango, Ititioca, Viradouro, Vital Brasil e até com São Francisco pelo Morro do Souza Soares, Santa Rosa possui extensão considerável para um bairro da Região das Praias da Baía, sendo importante ponto de passagem para outras áreas de Niterói.

De ocupação antiga, Santa Rosa deve a sua denominação à antiga Fazenda Santa Rosa (séc. XVIII) que dominava vasto território. A sua história confunde-se com a de Icaraí, sendo na verdade uma expansão deste bairro. O crescimento e desenvolvimento de Santa Rosa/Icaraí é resultante de um modelo de urbanização no qual foram privilegiadas áreas preferenciais de ocupação, geralmente locais mais próximos ao centro urbano, ao litoral, ou mesmo, de mais fácil acesso (um vale ou planície, por exemplo). Desse modo, o que se viu após a partilha das fazendas que dominavam a região, foi uma ocupação primeiramente concentrada ao longo da praia de Icaraí, expandindo-se em seguida para o interior próximo, em direção a Santa Rosa.

No século passado, a paisagem do bairro ainda era muito exuberante. Nesse período, o bairro viu passar por suas estradas, tropas de mulas vindas do interior que desciam dos caminhos do Viradouro, Atalaia e Cubango em direção ao Centro. As suas principais vias, na época, eram a rua Santa Rosa e a estrada do Calimbá (atual Dr. Paulo Cezar). Diversas chácaras surgiram da partilha da Fazenda Santa Rosa e para elas foram atraídas famílias de poder econômico mais elevado. Viveram no bairro expoentes ilustres da história de Niterói e da antiga Província do Rio de Janeiro.

Com o retalhamento e loteamento de algumas chácaras, e o aterro de áreas alagáveis e capinzais, abriram-se novas ruas, facilitando o prolongamento das vias que partiam de Icaraí.

No ano de 1883, com a fundação do Colégio Salesiano, o bairro tornou-se mais conhecido ainda. Ao lado do Colégio instalou-se a Basílica e, nas proximidades, no alto do Morro do Atalaia, o Monumento a Nossa Senhora Auxiliadora, inaugurado em 1900. Atualmente encontra-se instalado na Basílica um órgão de 11.130 tubos, o maior da América Latina.

No final do século passado e início deste, aconteceram importantes melhorias no bairro. Diversas ruas foram saneadas, calçadas e iluminadas, sendo servidas por linhas de bondes de tração animal e, mais tarde, de bondes elétricos.

O crescimento recente de Santa Rosa seguiu os mesmos padrões de Icaraí. Já muito populosos, os dois bairros viram a substituição progressiva de suas casas por edifícios de apartamentos. Este intenso processo de especulação teve seu auge nas décadas de 60 e 70, com os apartamentos financiados pelo BNH. O boom imobiliário tem reflexos até os dias atuais. A construção da Ponte Rio-Niterói intensificou a verticalização imobiliária em terras fluminenses, devido ao estrangulamento da cidade do Rio de Janeiro e da metropolização de Niterói.

(Fonte: Niterói-Bairros – Secretaria Municipal de Desenvolvimento, Ciência e Tecnologia de Niterói – 1991, via Cultura Niterói)

Santa Rosa, década 1930.

 

 

Icaraí

Área: 1,88 km2
População: 75127 habitantes (IBGE 2000)

A palavra Icarahy, em tupi-guarani, subdivide-se em I (água ou rio) e Carahy (sagrado ou bento). Icarahy significa água ou rio sagrado. É um bairro de função polarizadora, o mais populoso e com maior densidade demográfica no contexto municipal. Limita-se com Ingá, Morro do Estado, Centro, Santa Rosa, Vital Brasil, São Francisco e as águas da Baía de Guanabara. Ocupa aproximadamente 2 km2 , o que representa 1,4% da área total do município. Tem uma população residente de 62.494 pessoas (vide tabela I) e densidade demográfica de 33.817 hab/Km2.

A origem do bairro remonta à Freguesia de São João de Carahy, parte integrante da Sesmaria dos Índios, concedida a Araribóia em 1568.

Localizavam-se em sua área duas grandes fazendas conhecidas como a Fazenda de Icaraí, cujo dono era Estanislau Teixeira da Mata; e a Fazenda do Cavalão, do Tenente Coronel Antonio José Cardoso Ramalho. O escoamento da produção era feito por mar, através do porto de atracação de Carahy; e por terra, até a estrada do Calimbá, em direção à Praia Grande.

No séc. XIX a Freguesia integrou-se à recém criada Vila Real da Praia Grande. Nesta época, Icaraí ainda era um vasto areal que se estendia desde o mar até as proximidades da atual rua Santa Rosa. Areal coberto por pitangueiras, cajueiros, cactos e vegetação típica de restinga.

Parte das terras pertencia à Igreja. O mosteiro de São Bento adquiriu no ano de 1698 a área que hoje chamamos de Campo de São Bento, onde fora erigido o Outeiro de São João de Icaraí. Na época, a área era um enorme lodaçal devido a presença do rio Icaraí, atualmente canalizado.

Em 1834, com a criação do município neutro, Nictheroy torna-se capital provincial e é elevada à categoria de cidade. Ainda no séc. XIX, Icaraí recebe o seu primeiro plano de arruamento — iniciando-se efetivamente o seu povoamento. O Plano Taulois (1840-41) foi idealizado pelo engenheiro francês Pedro Taulois, no governo do Visconde de Uruguai. Consistia no traçado das ruas em forma de xadrez, ou seja uma malha viária octogonal, com início na praia e término nas proximidades da rua Santa Rosa.

A malha viária facilitou a expansão de Icaraí que passou a ser conhecida como “Cidade Nova da Praia de Icaraí”. Muitas dessas ruas só foram abertas depois de 1854 e receberam nomes de fatos históricos e de pessoas ilustres.

As ruas paralelas à praia receberam os nomes de Vera Cruz, Cabral, Souza, Mem de Sá e Estácio.

As perpendiculares foram denominadas: da Constituição, Independência, Aclamação, Sagração, Fundador, Regeneração, dos Legisladores, Cruzeiro, Estrelas, Reconhecimento/Adicional e Santa Bibiana1.

Um dado histórico interessante da época foi a construção, em 1864, do asilo Santa Leopoldina que se instalou na antiga rua da Constituição. Nos primeiros anos do séc. XX (1903) o asilo deixou de pertencer ao Estado e passou para a Irmandade de São Vicente de Paulo, em terrenos doados pela viúva Angélica Maria Franco da Fonseca e que hoje representam extensa área do bairro.

A necessidade do arruamento de Icaraí fez desaparecer a bela estrutura rochosa em forma de arco existente na praia, a Itapuca original, dinamitada para dar lugar ao cais e a rua que ligaram o bairro ao Ingá. Deste período sobreviveram as formações rochosas que vemos ainda hoje neste trecho da praia.

A Pedra da Itapuca*2 e também a Pedra do Índio, transformaram-se em símbolos histórico-paisagísticos não só do bairro, mas também de todo município. Reconhecidos desde a época do Império, foram utilizados como efígie nas cédulas de 200$000 (duzentos mil réis) e nos selos dos Correios e Telégrafos, em 1945.

Outro símbolo paisagístico com reconhecimento para além do bairro é o Campo de São Bento. O projeto, de autoria do engenheiro paisagista belga Arséne Puttemans, foi executado pelo prefeito Pereira Ferraz. O local, que já se chamou Parque Prefeito Ferraz, também foi utilizado para adestramento de tropas na época do Império.

No final do séc. XIX ficou concluída a obra do Jardim Icaraí, entre as ruas da Constituição e da Independência. Este jardim passou por sucessivas transformações no decorrer de sua história, sendo que no ano de 1940 recebeu o busto do Presidente Getúlio Vargas e passou a denominar-se Praça Getúlio Vargas.

Localizado em frente a Praça Getúlio Vargas, no ano de 1932 é inaugurado o Hotel Balneário Casino Icarahy — ocupando o palacete construído em 1916 por Eugen Urban. Este prédio, um dos mais bem planejados de Niterói segundo o padrão “Art Deco” em voga na época, foi demolido em 1939. Deu lugar ao edifício atual, inaugurado pela então primeira-dama Darcy Vargas. O Casino Icarahy funcionou até 30 de abril de 1946, data da proibição do jogo no Brasil. Fechado o cassino, o prédio foi vendido e passou funcionar como hotel-restaurante. Em 1952, depois de algumas reformas, surge o Teatro Cassino Icaraí. Na década de 60, funcionaram nele o Cine Grill e o Cine Cassino, nos espaços anteriormente ocupados pelo Grill-Room e pelo salão de jogos. Em 1964, o prédio passa a ser propriedade do Ministério da Educação e Cultura, vindo a abrigar a Reitoria da UFF a partir de 1967 — um dos mais importantes pólos culturais da cidade.

A praia de Icaraí era o grande atrativo da cidade. Em 1936-37 a Prefeitura, a imprensa e o Clube de Regatas Icaraí — construiram em concreto armado um trampolim no meio da praia projetado pelo Arquiteto Luis Fossati. O trampolim foi dinamitado no final da década de 60 por oferecer perigo aos banhistas.

No período pós-guerra, com o processo de industrialização pelo qual passava o país, o bairro viu crescer a demanda de habitações para a classe média. Houve na época uma migração intra-municipal sobretudo de moradores da Zona Norte da cidade; e migração intra-estadual, principalmente de São Gonçalo e municípios do Norte e Noroeste fluminenses.

A construção de edificações multifamiliares foi a solução adotada pelo capital imobiliário para atender a nova classe social imbuída do desejo de morar à beira-mar. O boom imobiliário atravessa décadas e teve como facilitador os financiamentos do Banco Nacional da Habitação (BNH), a partir do final da década de 60.

Na década de setenta, com a construção da Ponte Rio-Niterói, o bairro consolida-se como centro urbano polarizador e de grande importância para a cidade, com forte concentração de comércio, de serviços e de atividades de lazer.

O modelo de ocupação caracterizado pela contínua substituição de casas isoladas e de prédios de poucos pavimentos por outros prédios maiores e mais altos, intensifica-se sobretudo a partir da orla, onde o valor da terra atinge altas cifras, diminuindo a altura dos prédios e o valor dos imóveis à medida em que as quadras se interiorizam. Prédios luxuosos, de alto padrão construtivo, são erguidos na orla. E prédios de padrão médio e baixo são construídos no interior do bairro, expressando a segregação espacial da paisagem urbana.

A crise econômica dos anos oitenta, associada a super valorização dos preços dos terrenos, obriga as construtoras a se deslocarem para bairros próximos. Nesta época também cresce a ocupação das encostas e morros.

A beleza de Icaraí sempre serviu de inspiração para pintores, poetas e músicos ao longo da história do bairro. Por isso vale a pena lembrar — como síntese-homenagem — os versos da música Icaraí, do compositor Cilico, gravada pela cantora Beth Carvalho, no CD “Cilico e seus amigos”, recém lançado pelo selo Niterói Discos:

…”Icaraí,
Que vem desde a Itapuca
Até a subida da Fróes
Icaraí,
Os poetas já não fazem mais Nictheroy
Canto a beleza, lembro o Gentileza
Histórias de rir.
Quanta Saudade,
O meu peito invade do Petit Paris
Eu sei que o tempo não volta
Que o Trolley faz volta no Canto do Rio
E nas areias sereias olhando o Rio
Eu sei que o tempo não volta
E o Trolley faz volta no Canto do Rio
E nas areias, a melhor vista do Rio”.

Cartão postal, década 1960-70.

(Fonte: Prefeitura de Niterói / Cultura)

 

 

Dr. Paulo Cesar II

Pesquisando mais um pouco sobre Dr. Paulo César de Andrade, encontramos na internet uma matéria, versando sobre outros interesses do personagem acima, além da Medicina. Veja:

O sonho do hipódromo

Por Jorge Nunes

Durante todo o século XIX, as corridas de cavalo eram praticamente a única distração esportiva – com o “plus” de uma aposta – que existia na cidade, pois o futebol e outras modalidades aqui só chegaram no século XX. Que o diga o comerciante da Venda da Cruz, que as promovia todos os domingos em frente a seu estabelecimento comercial, mas não se identificava, para evitar problemas. Era o princípio de 1885, porém bem antes, em 1857, os jornais já anunciavam corridas no Fonseca e no Maruí, com cavalos do Cabo, para onde os gonçalenses iam quando por aqui não havia nada similar programado.

Portanto, era natural que aqui também se quisesse algo oficial do gênero: afinal de contas, já existiam pelo menos cinco hipódromos no Rio e, na Província, os municípios de Petrópolis e Nova Friburgo tinham os seus. E não existiria na capital da Província? Absurdo.

Por isso, em 28 de fevereiro de 1885, reuniram-se 27 pessoas, por iniciativa do médico Paulo Cesar de Andrade (1848/1899) e do conde de Herzberg (Carlos de Herzberg nasceu em Hanôver, Prússia, atual Alemanha, em 11 de janeiro de 1822, era capitão reformado do exército prussiano e instrutor de cavalaria, veio para o Rio, foi um dos fundadores do Jóquei Clube Brasileiro e empresário funerário no Rio, era casado com Leopoldina Suckow e faleceu em 15 de setembro de 1899), para criar o hipódromo do lado de cá da Guanabara. A presidência dos trabalhos coube inicialmente ao dr. Paulo César, que a transmitiu ao comendador e empresário Domingos Moitinho quando este chegou ao evento. O fazendeiro em Neves, José de Moraes e Silva, ofereceu ampla área junto ao mar e, para avaliá-la, foi composta comissão integrada pelo Conde Herzberg, comendador Henrique Possolo, Francisco Luiz Tavares, Cesar Bourbon e o engenheiro Dionísio da Costa e Silva, ao mesmo tempo tendo sido adotados provisoriamente os estatutos e o código de corridas do jóquei da corte. Dias depois, a comissão estimou em 6:000$000 o valor do terreno, tendo sido assinada em 27 de abril a escritura de compra.

Antes, em 15 de março, foi realizada a reunião de eleição da diretoria (médico Paulo Cesar de Andrade, presidente; Henrique Possolo, vice-presidente; Leopoldo da Cunha Júnior e o médico Torquato de Gouveia, 1º e 2º secretários; e Bernardo Belisário de Lemos Silva, tesoureiro) e dos conselhos geral e fiscal. Aceitou-se a avaliação do terreno oferecido por Moraes e Silva e decidiu-se a denominação do hipódromo: Guanabara. Para construí-lo, foi aberta concorrência, de que participaram o construtor Inácio Tavares de Souza, de Botafogo, e a Sociedade Edificadora, de São Cristóvão, que propuseram 36:500$000 e 59:000$000, vencendo a primeira participante. O projeto, do engenheiro Dionísio da Costa e Silva e do arquiteto Heitor de Cordoville, previa raia de 1300 metros de extensão e arquibancadas com 138 metros para 1300 a 1400 pessoas, além das demais dependências. As obras tiveram início em 23 de maio, com previsão de conclusão a tempo de sua inauguração em sete de setembro, mas as chuvas causaram o retardamento por dois meses.

Porém, como levar os espectadores até lá? O próprio hipódromo construiu um cais de atracação para receber as lanchas da Companhia Ferry vindas do Rio e de Niterói; a Ferro Carril Urbano de Niterói, cujos bondes iam até o Barreto, solicitou, e obteve em 25 de maio, autorização para estender seus trilhos até Neves (cuja inauguração foi realizada em 18 de outubro); e o próprio José de Moraes e Silva abriu em suas terras uma rua, a que denominou Cônego Goulart (como é até hoje), para garantir o acesso daqueles que chegassem à estação da Estrada de Ferro Leopoldina, nas imediações.

A festa de inauguração foi algo excepcional. Para atrair visitantes, até então só tínhamos a Festa do Divino Espírito Santo, na Igreja Matriz de São Gonçalo, e o hipódromo marcou época. No dia oito de novembro de 1885, era ele inaugurado com pompa e circunstância. A empresa Carris Urbanos de Niterói colocou mais bondes em circulação entre Niterói e Neves, a Companhia Ferry (que fazia a ligação marítima entre Rio e Niterói) criou linhas especiais da corte diretamente às Neves, aproveitando o cais que neste hoje bairro de São Gonçalo fora construído, e diligências, tílburis e charretes faziam a ligação do centro de Niterói e também do arraial de São Gonçalo com o novo prado.

Depois das providências de praxe, com a banda do corpo policial (atual PMERJ) tocando as músicas da época e com o desenlace da fita inaugural, passou-se ao que interessava: as corridas. O primeiro páreo (Nictheroy) foi vencido por Sova, chegando em segundo lugar o cavalo Tchan Tchin-Tsung: o segundo páreo (Conde de Herzberg) teve como vencedores Aymoré e África; o terceiro (Oito de Novembro, data da inauguração), Bilter e Americana: o quarto (Animação) teve tantos animais (17) inscritos, que foi dividido em duas séries, vencendo a primeira as éguas Carolla e Bela Yayá e, a segunda, os cavalos Savana e Didi; o quinto (Experiência), Pastor e Sudamerikanyche; o sexto (Hyppodromo Guanabara), Pheynea e Garibaldi; e o sétimo e último páreo (Criadores), foi vencido por Garibaldi e Jaguary. As corridas variavam em extensão de 850, 1000, 1200 ou 1609 metros. O volume de apostas superou as expectativas: 52:680$000.

O leitor poderá estranhar que aqui não haja a citação dos jóqueis vencedores. Mas é preciso explicar: na época (e até boa parte do século XX), os importantes eram apenas os animais e não os seus condutores, notícia apenas quando se acidentavam. Que o diga o jóquei Francisco Luiz, que começou sua carreira no Hipódromo Guanabara, em Neves, deslocou-se para o Rio e em seguida para São Paulo, alcançando grandes vitórias e renome. Porém, na capital paulista, foi contaminado de tuberculose, voltou com a família para Neves e ali faleceu em janeiro de 1901, na mais completa pobreza.

Durante o restante do ano de 1885, as coisas foram bem, mas a partir de abril de 1886 começaram os problemas: em Niterói e todos os seus distritos (inclusive São Gonçalo) não havia gente com dinheiro (e interesse) em número suficiente para movimentar o prado e atrair o pessoal da corte não era fácil, posto que lá funcionavam quatro prados, dos quais só restou um, o Jóquei Clube Brasileiro, ainda hoje existente. O deslocamento dos cariocas até o outro lado da baía não valia a pena. As brigas internas eram tamanhas que o médico Paulo Cesar de Andrade (patrono da Rua Dr. Paulo César, em Icaraí, Niterói) resolveu se afastar e, em primeiro de maio seguinte, uma nova diretoria foi eleita, tendo Érico Peña à frente. Porém, o público reduzido continuava. Comissão composta de Fróes da Cruz, Francisco Luiz Tavares e Carlos de Azevedo foi ao presidente da província, em agosto de 1886, pedir mais uma viagem dos trens nos dias de corrida, mas não foi atendida. Até o cônego João Ferreira Goulart se envolveu e conseguiu uma vitória parcial: em janeiro de 1887, a província autorizou que a Carris Urbanos fizesse mais uma viagem de bonde aos domingos, até o prado. Mesmo assim, a situação não melhorou e as disputas internas cresceram, a ponto de Frederico do Couto ofender um dos pioneiros, José de Moraes e Silva (poeta, jornalista, fazendeiro, vereador, presidente da Câmara Municipal e, em decorrência, Chefe do Executivo) na assembleia de dezembro daquele ano. A partir de janeiro de 1888 aumentou-se o número de viagens de barcas. De novo, o resultado foi pífio na atração de frequentadores vindos da corte. Em setembro seguinte, assumiu nova diretoria presidida por Francisco Luiz Tavares, que instalou uma agência de inscrições de cavalos e para apostas no Rio e dividiu as pules (consideradas caras) em frações, a fim de atrair apostadores de menor renda. De novo, resultado nulo.

Bem que, proclamada a República e transformada a Província em Estado, seu primeiro governador, Francisco Portela, ainda tentou dar uma ajuda, ao patrocinar o Grande Prêmio do Estado do Rio de Janeiro, que correu no dia nove de março de 1890 com prêmio valioso para o vencedor. O esforço, entretanto, foi em vão. Em outubro daquele ano, nova mudança de diretoria, agora de novo presidida pelo dr. Érico Peña, que levou três meses tentando reanimar o Hipódromo Guanabara.

Entretanto, as divergências acumulavam-se e o prado só dava prejuízo financeiro. Por isso, no princípio de 1891, decidiu-se pela dissolução da entidade e foi nomeada uma comissão liquidante. A área, de 59.310 metros quadrados, foi levada a leilão em oito de abril daquele ano pelo seu ex-diretor e leiloeiro Afonso Nunes, que também leiloou os móveis no dia 14 do mesmo mês. O vencedor do primeiro leilão foi o comendador João Monteiro de Queiroz (1830-1907), com proposta no valor de 55:000$, mas ele acabou por abrir mão de seu direito em favor da Companhia Hime, que nas proximidades já possuía a Companhia Siderotécnica (a primeira metalúrgica fluminense, criada em 1856), a Companhia Brazil Metalúrgica e a Companhia Industrial do Brasil. Com a área adquirida, as três empresas expandiram-se e fundiram-se no século seguinte para a criação da Companhia Brasileira de Usinas Metalúrgicas (CBUM), vendida muitos anos depois para o Grupo Gerdau, que encerrou as atividades daquela indústria pioneira na década de 1990, causando desemprego na região.

Sem hipódromo, sequer ficamos a ver navios, pois a ponte de atracação ali construída também foi abandonada; e nem ficamos a ver cavalos.

O fracasso, entretanto, não afetou dom Carlos Gianelli, cônsul do Uruguai no Rio de Janeiro e proprietário da Fazenda Guaxindiba, onde ele instalou raias de corrida de cavalos para animar os visitantes, na década de 1890, e depois criou a Tramway Rural Fluminense (TRF), com bondes puxados por locomotivas a vapor, de Neves a Alcântara, para o transporte urbano e também a fim de facilitar o acesso àquele prado privado, desativado na primeira década do século XX. O fracasso, já agora acumulado, também não desanimou o Clube Recreativo Flor de São Gonçalo nem o Hero Club de Alcântara, que fizeram seus próprios prados (o primeiro, no atual bairro de Mangueira; e, o segundo, no bairro do Coelho) e os inauguraram em agosto e em outubro de 1912, respectivamente. Igualmente, tiveram eles curta duração. Nem afetou o entusiasmo do empresário, de ascendência italiana, Francisco Docca, que instalou uma pista de corridas de animais (além de cavalos, cachorros) na localidade de Gambá, em 1925, reformou-a por exigência das autoridades e a reabriu em 1927, mas que também teve curta vida. Restou uma última tentativa, em 1957, quando foi lançado o Jóquei Clube do Estado do Rio de Janeiro, que sequer chegou a se tornar realidade temporária e, vendido em 1959 para incorporadores de loteamentos, transformou-se no que é hoje o bairro do Jóquei.

(Fonte: Site Bom dia, São Gonçalo! , 9/4/2017 (Acesso em 10/11/2017)

São Gonçalo, Neves. (Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, IBGE, 1956)