Icaraí

Área: 1,88 km2
População: 75127 habitantes (IBGE 2000)

A palavra Icarahy, em tupi-guarani, subdivide-se em I (água ou rio) e Carahy (sagrado ou bento). Icarahy significa água ou rio sagrado. É um bairro de função polarizadora, o mais populoso e com maior densidade demográfica no contexto municipal. Limita-se com Ingá, Morro do Estado, Centro, Santa Rosa, Vital Brasil, São Francisco e as águas da Baía de Guanabara. Ocupa aproximadamente 2 km2 , o que representa 1,4% da área total do município. Tem uma população residente de 62.494 pessoas (vide tabela I) e densidade demográfica de 33.817 hab/Km2.

A origem do bairro remonta à Freguesia de São João de Carahy, parte integrante da Sesmaria dos Índios, concedida a Araribóia em 1568.

Localizavam-se em sua área duas grandes fazendas conhecidas como a Fazenda de Icaraí, cujo dono era Estanislau Teixeira da Mata; e a Fazenda do Cavalão, do Tenente Coronel Antonio José Cardoso Ramalho. O escoamento da produção era feito por mar, através do porto de atracação de Carahy; e por terra, até a estrada do Calimbá, em direção à Praia Grande.

No séc. XIX a Freguesia integrou-se à recém criada Vila Real da Praia Grande. Nesta época, Icaraí ainda era um vasto areal que se estendia desde o mar até as proximidades da atual rua Santa Rosa. Areal coberto por pitangueiras, cajueiros, cactos e vegetação típica de restinga.

Parte das terras pertencia à Igreja. O mosteiro de São Bento adquiriu no ano de 1698 a área que hoje chamamos de Campo de São Bento, onde fora erigido o Outeiro de São João de Icaraí. Na época, a área era um enorme lodaçal devido a presença do rio Icaraí, atualmente canalizado.

Em 1834, com a criação do município neutro, Nictheroy torna-se capital provincial e é elevada à categoria de cidade. Ainda no séc. XIX, Icaraí recebe o seu primeiro plano de arruamento — iniciando-se efetivamente o seu povoamento. O Plano Taulois (1840-41) foi idealizado pelo engenheiro francês Pedro Taulois, no governo do Visconde de Uruguai. Consistia no traçado das ruas em forma de xadrez, ou seja uma malha viária octogonal, com início na praia e término nas proximidades da rua Santa Rosa.

A malha viária facilitou a expansão de Icaraí que passou a ser conhecida como “Cidade Nova da Praia de Icaraí”. Muitas dessas ruas só foram abertas depois de 1854 e receberam nomes de fatos históricos e de pessoas ilustres.

As ruas paralelas à praia receberam os nomes de Vera Cruz, Cabral, Souza, Mem de Sá e Estácio.

As perpendiculares foram denominadas: da Constituição, Independência, Aclamação, Sagração, Fundador, Regeneração, dos Legisladores, Cruzeiro, Estrelas, Reconhecimento/Adicional e Santa Bibiana1.

Um dado histórico interessante da época foi a construção, em 1864, do asilo Santa Leopoldina que se instalou na antiga rua da Constituição. Nos primeiros anos do séc. XX (1903) o asilo deixou de pertencer ao Estado e passou para a Irmandade de São Vicente de Paulo, em terrenos doados pela viúva Angélica Maria Franco da Fonseca e que hoje representam extensa área do bairro.

A necessidade do arruamento de Icaraí fez desaparecer a bela estrutura rochosa em forma de arco existente na praia, a Itapuca original, dinamitada para dar lugar ao cais e a rua que ligaram o bairro ao Ingá. Deste período sobreviveram as formações rochosas que vemos ainda hoje neste trecho da praia.

A Pedra da Itapuca*2 e também a Pedra do Índio, transformaram-se em símbolos histórico-paisagísticos não só do bairro, mas também de todo município. Reconhecidos desde a época do Império, foram utilizados como efígie nas cédulas de 200$000 (duzentos mil réis) e nos selos dos Correios e Telégrafos, em 1945.

Outro símbolo paisagístico com reconhecimento para além do bairro é o Campo de São Bento. O projeto, de autoria do engenheiro paisagista belga Arséne Puttemans, foi executado pelo prefeito Pereira Ferraz. O local, que já se chamou Parque Prefeito Ferraz, também foi utilizado para adestramento de tropas na época do Império.

No final do séc. XIX ficou concluída a obra do Jardim Icaraí, entre as ruas da Constituição e da Independência. Este jardim passou por sucessivas transformações no decorrer de sua história, sendo que no ano de 1940 recebeu o busto do Presidente Getúlio Vargas e passou a denominar-se Praça Getúlio Vargas.

Localizado em frente a Praça Getúlio Vargas, no ano de 1932 é inaugurado o Hotel Balneário Casino Icarahy — ocupando o palacete construído em 1916 por Eugen Urban. Este prédio, um dos mais bem planejados de Niterói segundo o padrão “Art Deco” em voga na época, foi demolido em 1939. Deu lugar ao edifício atual, inaugurado pela então primeira-dama Darcy Vargas. O Casino Icarahy funcionou até 30 de abril de 1946, data da proibição do jogo no Brasil. Fechado o cassino, o prédio foi vendido e passou funcionar como hotel-restaurante. Em 1952, depois de algumas reformas, surge o Teatro Cassino Icaraí. Na década de 60, funcionaram nele o Cine Grill e o Cine Cassino, nos espaços anteriormente ocupados pelo Grill-Room e pelo salão de jogos. Em 1964, o prédio passa a ser propriedade do Ministério da Educação e Cultura, vindo a abrigar a Reitoria da UFF a partir de 1967 — um dos mais importantes pólos culturais da cidade.

A praia de Icaraí era o grande atrativo da cidade. Em 1936-37 a Prefeitura, a imprensa e o Clube de Regatas Icaraí — construiram em concreto armado um trampolim no meio da praia projetado pelo Arquiteto Luis Fossati. O trampolim foi dinamitado no final da década de 60 por oferecer perigo aos banhistas.

No período pós-guerra, com o processo de industrialização pelo qual passava o país, o bairro viu crescer a demanda de habitações para a classe média. Houve na época uma migração intra-municipal sobretudo de moradores da Zona Norte da cidade; e migração intra-estadual, principalmente de São Gonçalo e municípios do Norte e Noroeste fluminenses.

A construção de edificações multifamiliares foi a solução adotada pelo capital imobiliário para atender a nova classe social imbuída do desejo de morar à beira-mar. O boom imobiliário atravessa décadas e teve como facilitador os financiamentos do Banco Nacional da Habitação (BNH), a partir do final da década de 60.

Na década de setenta, com a construção da Ponte Rio-Niterói, o bairro consolida-se como centro urbano polarizador e de grande importância para a cidade, com forte concentração de comércio, de serviços e de atividades de lazer.

O modelo de ocupação caracterizado pela contínua substituição de casas isoladas e de prédios de poucos pavimentos por outros prédios maiores e mais altos, intensifica-se sobretudo a partir da orla, onde o valor da terra atinge altas cifras, diminuindo a altura dos prédios e o valor dos imóveis à medida em que as quadras se interiorizam. Prédios luxuosos, de alto padrão construtivo, são erguidos na orla. E prédios de padrão médio e baixo são construídos no interior do bairro, expressando a segregação espacial da paisagem urbana.

A crise econômica dos anos oitenta, associada a super valorização dos preços dos terrenos, obriga as construtoras a se deslocarem para bairros próximos. Nesta época também cresce a ocupação das encostas e morros.

A beleza de Icaraí sempre serviu de inspiração para pintores, poetas e músicos ao longo da história do bairro. Por isso vale a pena lembrar — como síntese-homenagem — os versos da música Icaraí, do compositor Cilico, gravada pela cantora Beth Carvalho, no CD “Cilico e seus amigos”, recém lançado pelo selo Niterói Discos:

…”Icaraí,
Que vem desde a Itapuca
Até a subida da Fróes
Icaraí,
Os poetas já não fazem mais Nictheroy
Canto a beleza, lembro o Gentileza
Histórias de rir.
Quanta Saudade,
O meu peito invade do Petit Paris
Eu sei que o tempo não volta
Que o Trolley faz volta no Canto do Rio
E nas areias sereias olhando o Rio
Eu sei que o tempo não volta
E o Trolley faz volta no Canto do Rio
E nas areias, a melhor vista do Rio”.

Cartão postal, década 1960-70.

(Fonte: Prefeitura de Niterói / Cultura)

 

 

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