“A história de Icaraí”

A origem do bairro remonta à Freguesia de São João de Carahy, parte integrante da Sesmaria dos Índios, concedida a Araribóia em 1568.

Localizavam-se em sua área duas grandes fazendas conhecidas como a Fazenda de Icaraí, cujo dono era Estanislau Teixeira da Mata; e a Fazenda do Cavalão, do Tenente Coronel Antonio José Cardoso Ramalho. O escoamento da produção era feito por mar, através do porto de atracação de Carahy; e por terra, até a estrada do Calimbá, em direção à Praia Grande.

No séc. XIX a Freguesia integrou-se à recém criada Vila Real da Praia Grande. Nesta época, Icaraí ainda era um vasto areal que se estendia desde o mar até as proximidades da atual rua Santa Rosa, um areal coberto por pitangueiras, cajueiros, cactos e vegetação típica de restinga.

Parte das terras pertencia à Igreja. O mosteiro de São Bento adquiriu no ano de 1698 a área que hoje chamamos de Campo de São Bento, onde fora erigido o Outeiro de São João de Icaraí. Na época, a área era um enorme lodaçal devido à presença do rio Icaraí, atualmente canalizado.

Em 1834, com a criação do município neutro, Nictheroy torna-se capital provincial e é elevada à categoria de cidade. Ainda no séc. XIX, Icaraí recebe o seu primeiro plano de arruamento — iniciando-se efetivamente o seu povoamento. O Plano Taulois (1840-41) foi idealizado pelo engenheiro francês Pedro Taulois, no governo do Visconde de Uruguai. Consistia no traçado das ruas em forma de xadrez, ou seja uma malha viária octogonal, com início na praia e término nas proximidades da rua Santa Rosa.

A malha viária facilitou a expansão de Icaraí que passou a ser conhecida como “Cidade Nova da Praia de Icaraí”. Muitas dessas ruas só foram abertas depois de 1854 e receberam nomes de fatos históricos e de pessoas ilustres.

As ruas paralelas à praia receberam os nomes de Vera Cruz, Cabral, Souza, Mem de Sá e Estácio.

As perpendiculares foram denominadas: da Constituição, Independência, Aclamação, Sagração, Fundador, Regeneração, dos Legisladores, Cruzeiro, Estrelas, Reconhecimento/Adicional e Santa Bibiana1.

Um dado histórico interessante da época foi a construção, em 1864, do asilo Santa Leopoldina que se instalou na antiga rua da Constituição. Nos primeiros anos do séc. XX (1903) o asilo deixou de pertencer ao Estado e passou para a Irmandade de São Vicente de Paulo, em terrenos doados pela viúva Angélica Maria Franco da Fonseca e que hoje representam extensa área do bairro.

A necessidade do arruamento de Icaraí fez desaparecer a bela estrutura rochosa em forma de arco existente na praia, a Itapuca original, dinamitada para dar lugar ao cais e à rua que ligariam o bairro ao Ingá. Deste período sobreviveram as formações rochosas que vemos ainda hoje neste trecho da praia.

A Pedra da Itapuca e também a Pedra do Índio transformaram-se em símbolos histórico-paisagísticos não só do bairro, mas também de todo o município. Reconhecidos desde a época do Império, foram utilizados como efígie nas cédulas de 200$000 (duzentos mil réis) e nos selos dos Correios e Telégrafos, em 1945.

Outro símbolo paisagístico com reconhecimento para além do bairro é o Campo de São Bento. O projeto, de autoria do engenheiro paisagista belga Arsène Puttemans, foi executado pelo prefeito Pereira Ferraz. O local, que já se chamou Parque Prefeito Ferraz, também foi utilizado para adestramento de tropas na época do Império.

No final do séc. XIX ficou concluída a obra do Jardim Icaraí, entre as ruas da Constituição e da Independência. Este jardim passou por sucessivas transformações no decorrer de sua história, sendo que no ano de 1940 recebeu o busto do Presidente Getúlio Vargas e passou a denominar-se Praça Getúlio Vargas.

Localizado em frente à Praça Getúlio Vargas, no ano de 1932 é inaugurado o Hotel Balneário Casino Icarahy, ocupando o palacete construído em 1916 por Eugen Urban. Este prédio, um dos mais bem planejados de Niterói segundo o padrão “Art Deco” em voga na época, foi demolido em 1939. Deu lugar ao edifício atual, inaugurado pela então primeira-dama Darcy Vargas. O Casino Icarahy funcionou até 30 de abril de 1946, data da proibição do jogo no Brasil. Fechado o cassino, o prédio foi vendido e passou a funcionar como hotel-restaurante. Em 1952, depois de algumas reformas, surge o Teatro Cassino Icaraí. Na década de 60, funcionaram nele o Cine Grill e o Cine Cassino, nos espaços anteriormente ocupados pelo Grill-Room e pelo salão de jogos. Em 1964, o prédio passa a ser propriedade do Ministério da Educação e Cultura, vindo a abrigar a Reitoria da UFF a partir de 1967 — um dos mais importantes pólos culturais da cidade.

A praia de Icaraí era o grande atrativo da cidade. Em 1936-37 a Prefeitura, a imprensa e o Clube de Regatas Icaraí construíram em concreto armado um trampolim no meio da praia projetado pelo Arquiteto Luis Fossati. O trampolim foi dinamitado no final da década de 1960 por oferecer perigo aos banhistas.

No período pós-guerra, com o processo de industrialização pelo qual passava o país, o bairro viu crescer a demanda de habitações para a classe média. Houve na época uma migração intra-municipal sobretudo de moradores da Zona Norte da cidade; e migração intra-estadual, principalmente de São Gonçalo e municípios do Norte e Noroeste fluminenses.

A construção de edificações multifamiliares foi a solução adotada pelo capital imobiliário para atender à nova classe social imbuída do desejo de morar à beira-mar. O boom imobiliário atravessa décadas e teve como facilitadores os financiamentos do Banco Nacional da Habitação (BNH), a partir do final da década de 1960.

Na década de 1970, com a construção da Ponte Rio-Niterói, o bairro consolida-se como centro urbano polarizador e de grande importância para a cidade, com forte concentração de comércio, de serviços e de atividades de lazer.

O modelo de ocupação caracterizado pela contínua substituição de casas isoladas e de prédios de poucos pavimentos por outros prédios maiores e mais altos, intensifica-se sobretudo a partir da orla, onde o valor da terra atinge altas cifras, diminuindo a altura dos prédios e o valor dos imóveis à medida em que as quadras se interiorizam. Prédios luxuosos, de alto padrão construtivo, são erguidos na orla, e prédios de padrão médio e baixo são construídos no interior do bairro, expressando a segregação espacial da paisagem urbana.

A crise econômica dos anos 1980, associada à super valorização dos preços dos terrenos, obriga as construtoras a se deslocarem para bairros próximos. Nesta época também cresce a ocupação das encostas e morros.

A beleza de Icaraí sempre serviu de inspiração para pintores, poetas e músicos ao longo da história do bairro.

(Fonte: site “Sou mais Niterói”, com algumas adaptações do texto. Acesso em 24 fev. 2018)

 

 

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“Praia de Icaraí”

A Praia de Icaraí e seu famoso trampolim, lugar nobre, gente bonita, o “footing” ao entardecer, as areias sempre lotadas no verão, o frescobol, as filas no Cinema Icaraí, os frequentadíssimos bailes do Clube Central e do Clube de Regatas Icaraí, as alegres gincanas, um pôr do sol de arrepiar, escadas com corrimão de cimento trabalhado para descermos até a areia, sem sujeira ou poluição, as crianças catando tatuí, fritando-os ao chegar em casa garantindo o almoço. As boias eram câmaras de ar e as bicicletas, muitas bicicletas, encostadas nas árvores e na mureta da praia, sem cadeados. Seus donos ao voltarem do banho de sol e do mergulho tinham a certeza de que não haviam sido roubadas.

Quem se lembra dos belos corrimões que cercavam as escadas para descer até a praia? A garotinha faz pose junto a um deles.
Bicicletas na praia

Hotel Cassino Icaraí

Este merece um capítulo à parte. Além da jogatina, local de belos e luxuosos shows com famosos artistas nacionais e internacionais e um restaurante para ninguém botar defeito. Muita gente frequentava o Hotel Cassino Icaraí só para jantar e assistir aos shows, salão de jogos nem pensar. Movimento intenso, o jogo atraía gente de prestígio, em noites esplendorosas e a elegância dos frequentadores, predominando o charme do mundo feminino. No moderno palco, Frei José Mojica, mexicano, um misto de tenor e religiosos se apresentou pela primeira vez no Brasil.

Os artistas se revezavam entre os Cassinos da Urca, Icaraí e Quitandinha, geralmente nesta ordem, empresariados por Joaquim Rolla, também administrador dos três Cassinos e personagem de destaque no mundo político e social daqueles tempos.

Um detalhe de que poucos devem se lembrar: o Hospital Municipal (na época) Antônio Pedro foi construído e totalmente equipado com os impostos oriundos do Cassino. Os aparelhos foram comprados nos Estados Unidos pelo prestigiado médico Mário Monteiro que viajou para lá, única e exclusivamente para tal fim. Com uma equipe médica de qualidade, abrangendo todas as especialidades. As pessoas falavam: se acontecer algum problema de saúde ou acidente me leva para o Antônio Pedro. Sabiam que havia sempre médicos conceituados e de todas as especialidades de plantão. Que diferença para os dias de hoje…

Proibido o jogo, no Governo do General Eurico Gaspar Dutra, em plena ditadura, o Hotel Cassino Icaraí foi comprado pela família Paz. Funcionou por vários anos não só o hotel, como o restaurante, o cinema, o “Grill Room” e a “Boite Blue Sky”, até ser adquirido pela UFF (Universidade Federal Fluminense), onde funciona até hoje a Reitoria.

(Fonte: Carlos Ruas, Niterói de outros tempos: fatos, festas e fotos)

Vista aérea da parte central de Icaraí, onde sobressaíam muitas casas, mas os prédios já começavam a tomar conta dos espaços.
Praia de Icaraí vista do Canto do Rio. Em primeiro plano à direita da foto o famoso Bar do Honorato, único lugar para se tomar as “louras suadas” como dizia o colunista Hercílio Miranda ao referir-se às cervejas. Ali, os bondes faziam o contorno para voltar ao centro da cidade.

 

 

Bem-vinda e bem-vindo!

Neste blog reunimos atualidades, histórias, lendas e fatos pitorescos, personagens marcantes e tipos faceiros de Icaraí que contribuíram para a formação dos contornos geográficos, sociais, culturais e urbanísticos do bairro.
Boa leitura e bom divertimento!

“Se não for mentira, deve ser verdade”
Emmanuel de Macedo Soares
(Jornalista e historiador, 1945-2017)

(Acima: gravura de Antônio Firmino Monteiro “Um dia de maio: folia do Espírito Santo na roça”, 1884. Via Grupo de História de Niterói no Facebook.)