Ainda o Petit…

Para complementar, por ora, essas postagens sobre o bar Petit Paris, reproduzo alguns depoimentos, colhidos no grupo de História de Niterói, no Facebook, e de outros sites, que relatam mais alguns fatos interessantes e pitorescos sobre esse bar:

A casa era do Egílio Justi, tabelião e prefeito de São Gonçalo. A filha parece que mora no edifício construído no local, onde ele também morou, mas eu nunca me animei a procurar. O último dono foi Roberto Precht, que encontrei em Maricá e vez por outra aparecia na nossa roda no Lido, já faz umas pilhas de anos. Também não perguntei de fotos, porque o Petit está fotografado em detalhes nas minhas retinas, por dentro e por fora. Mas é bom que apareçam, porque quem não conhece merece conhecer. Qualquer dia desses falo um pouco sobre o rei do Petit, Robertinho Sacanagem, vulgo Roberto Lopes de Araújo.” – Emmanuel de Macedo Soares

… é interessantíssima essa história resgatada pelo Emmanuel, pois relembra um momento único daquele “point” e da época de ouro que o bairro vivia. Eu mesmo, nessa época frequentava o Petit mas era bem mais “devagar” com as bebidas e, talvez, por isso não tenha compartilhado da presença dele naquele momento. Na verdade, conforme é contado, ninguém fazia muita fé no “francês” [Pierre Barouh, ator] e curtia suas histórias e seu amor pela nossa música, que na época fazia sucesso no mundo. Anos depois, com o lançamento e o sucesso do filme veio a revelação de quem era o francês. Me lembro, na época, do filme, de alguns comentários sobre o Barouh, seu filme e menção à nossa música. Isso tudo estava perdido até agora. Esperemos que outros possam acrescentar algo mais à história e que as novas gerações aprendam a amar mais a cidade.” – H Lima Santos

Eu e minha mulher, ainda namorados, curtimos muito o Petit Paris. Ali conhecemos a “salada russa”, maionese com bastante beterraba, e rosbife de filé mignon bem fininho.” – Ney Rocha

É, Ney. Mas o rei dos reis do cardápio era o nhoque à parmigiana, que nunca mais achei em lugar nenhum de Nikiti.” – Emmanuel de Macedo Soares

Strogonoff foi o prato que escolheram para a festa de inauguração, em 15 de setembro de 1960. Galdino Pinaud e Alaor Scisínio saíram indignados, esperavam algo mais nobre do que um reles picadinho. E foram terminar a noite na Leiteria Brasil.” – Emmanuel de Macedo Soares

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Era o Le Petit Paris, que chegou a ter, nos fundos, a boate Tortuga, de Roberto Lacerda Alvez Precht, Irany Gomes e José Augusto Tanus, o Kanela. A casa principal era dirigida pelo baixinho Jonas, que não queria deixar o menino Sérgio Mendes tocar no seu piano, o que foi permitido por interferência dos jornalistas que frequentavam a casa. […] Tenho foto de almoço do novato Clube da Imprensa que criamos com o Abel Rodrigues, estando presente o senador e jornalista Danton Jobim.” – Jourdan Amora

Conforme foi dito anteriormente em Icaraí, mais precisamente na praça e no Le Petit, Bar Chalé e proximidades, se reuniam as lideranças locais e pessoas que não tinham posição política, pois Niterói era uma cidade onde todos se conheciam. […]
Tinha o Alan, professor de inglês e americano de origem, que dizia ter sido da legião estrangeira, com enorme tatuagem no braço esquerdo. Não gostava de polícia e provocava um comissário chamado Nílson que rondava por lá. Um saudoso bola preta, um negro alto e gordo, bom cantor e violonista, para desespero do dono do Le Petit, certa vez, quebrou o violão na cabeça de um rapaz que cantava a música “Eu te amo meu Brasil”, verdadeiro hino governamental da época.
Ao lado do Petit residia o Dourado em uma mansão, sendo um futuro radialista. Construiu um barco por distração e o mesmo ao ser colocado no mar, afundou logo, para gozação geral. Foi o suficiente para o comissário Nílson entrar na sua casa à procura de supostas publicações clandestinas. O Nílson não era do DOPS e ao revistar Miguelzinho Karatê, que fazia piadinhas, levou uma surra do mesmo e de muitos outros. […]
Membros do conjunto MPB4 também lá iam bem como o Silveira, que teve um convite para ir com Sérgio Mendes para os EUA. Não foi, teve uma música gravada por ele e infelizmente morreu sozinho em um asilo.” – Sérgio Luiz Mattos Lopes, www.niteroi1964.blogspot.com.br

 

 

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Petit Paris II

Em complementação ao post sobre o bar e restaurante Le Petit Paris (aqui), reproduzimos outra matéria sobre o famoso reduto boêmio de Icaraí, publicado no Jornal do Brasil, em 25 de fevereiro de 1989:

A lenda boêmia de Niterói

O bar Petit Paris marcou época na noite e ainda desperta saudades

Por Ney Reis

Houve um tempo em que o compositor Danilo Caymmi saía de Copacabana, pegava um ônibus, a barca até Niterói e mais um ônibus até Icaraí para tocar com os amigos nas tardes de domingo. Todo esse trabalho em troca de um sanduíche de queijo e um refrigerante. Mais ou menos na mesma época, o hoje mundialmente conhecido percussionista Naná Vasconcellos dividia com outros músicos garrafas de batida de limão e tirava sons de percussão no caramanchão da Praça Getúlio Vargas, em Icaraí, até o dia clarear. Parece inacreditável, mas esses tempos existiam e tiveram um lugar de referência capaz de juntar várias “feras” da Música Popular Brasileira atual: o bar e restaurante Petit Paris.

A época era a década de 60 e a pequena casa de dois quartos e uma varanda, reformada para virar um restaurante, localizada no número 139 da praça, era o lugar mais badalado e bem frequentado da cidade.

“O Petit Paris foi o primeiro lugar onde eu toquei na vida”, conta Danilo Caymmi. “Eu tinha uns amigos que moravam em Niterói e a gente se encontrava no bar para levar um som. Além da música, a gente acabava arranjando umas namoradas, umas meninas que iam nos ouvir e ver. Aquelas areias da praia de Icaraí já me conheceram muito bem…”, relembra Danilo com saudade. Seu depoimento mostra bem o clima reinante no legendário bar e restaurante de comida francesa: descontração, música e paquera. “O Petit começou nos anos 50 e foi um bom bar. Podia-se encontrar de tudo ali: uma prostituta disfarçada ou um garoto de 17 anos tocando um instrumento, fazendo música”, conta o arquiteto Alexandre Bender, que aos 20 anos estava no auge de seu “vício” pelo Petit, como era chamado o bar pelos íntimos. Segundo ele, alguns músicos de jazz tocavam lá e depois iam acabar a noite no igualmente legendário bar Bottle’s, ou no Little Club, do Beco das Garrafas, em Copacabana. “O Sérgio Mendes, um violonista chamado Silveira e o Tião Neto, hoje baixista do Tom Jobim, estavam sempre no Petit”, conta Bender.

Tião Neto, que começou a carreira profissional com o niteroiense Sérgio Mendes, hoje radicado nos EUA, foi um dos amigos dos franceses Raymond e Brigitte, os primeiros donos do Petit Paris, e fala com carinho da época. “Eu levava um violão pra lá e ficava tocando na varanda. Depois, Eles compraram um piano e quem quisesse poderia tocar”, lembra o músico. “Toda noite, eu e o Sérgio Mendes íamos ao Petit. Quem estava sempre lá era o pessoal do Rio Sailing Club, quase todos ingleses,  pessoal de letras, intelectuais e o society niteroiense. O próprio Raymond e a sua mulher Brigitte, além do Paul, que também era dono, preparavam a comida, por sinal muito gostosa”, comenta Tião. Segundo ele, a mousse de chocolate de Brigitte era algo de sensacional, além de todos os pratos, incluindo a comida brasileira, que também fazia parte do menu. Alguns anos depois, em 1980, Tião encontrou o casal Raymond e Brigitte em Paris, onde eles já estavam morando havia algum tempo, e foi uma festa. “Pra você ter ideia da amizade e do astral que existia entre nós desde os tempos do Petit, basta dizer que um dia, ao acordar, no hotel, dei de cara com um prato fundo de mousse de chocolate ao lado da cama, com um cartão dos dois. Foi emocionante”, conta o baixista.

Moradores de Niterói no início dos anos 60 e frequentadores do Petit Paris, os integrantes do grupo MPB-4 também têm boas lembranças. “Foi em 63 e 64 que a gente ia muito lá. Era um lugar simpático, onde íamos pra jantar. Aliás, fomos nós que inventamos de cantar lá, e depois a moda pegou”, conta Miltinho. “Éramos amadores e onde houvesse mais de duas pessoas a gente soltava a voz, fazia um show improvisado, pra mostrar nosso trabalho”, completa Rui. O garçom Antônio Vicente Rodrigues, hoje com 58 anos, lembra bem daqueles dias e comenta emocionado: “Tenho muitas saudades daquele lugar e daquele tempo. Ô época boa! O Sérgio Mendes era meu chapa e foi ele quem me apelidou de Titio, como me chamam até hoje. Ele não bebia quase nada e andou fazendo dieta. Era só chegar e me dizia que estava morrendo de sede, já sabendo que um copo com coca-cola, gelo e limão chegaria “voando” à sua mesa. A dieta era um filé sem sal com batata cozida, que ele devorava”. Titio lembra que o segundo dono, o falecido Jonas (todos os sobrenomes foram esquecidos pelos frequentadores, que se tratavam mutuamente pelo primeiro nome), era um sujeito baixinho, “de veneta”, cujo humor variava muito, mas o caráter era dos melhores. “Sempre me dei bem com ele e com os fregueses. Éramos todos camaradas”, conta o garçom, que hoje trabalha na Churrascaria Ao Vivo, na rua São José, Centro do Rio.

O lugar onde hoje está o Edifício Modigliani, de luxo, atraía adolescentes rebeldes, como a professora de Física, da UFF, Camila Morato, 36 anos. “Eu ia ao Petit desde os 16 anos. Dizia pro meu pai que ia dar uma volta na Moreira Cesar e aparecia no bar. Ele descobria e me tirava de lá à força. Eu, é lógico, ficava danada da vida”, lembra ela sorrindo. Hélio de Castro Júnior, engenheiro da Petrobrás e namorado de Camila, também frequentava o Petit Paris, mas ficava só “olhando os outros se divertirem”, pois era estudante e não tinha dinheiro para “entrar naquele lugar meio simples, meio sofisticado”, para usar uma expressão sua. O dentista Cláudio Costa Carvalho, 45 anos, irmão do baixista Tião Neto, era outro que não saía do bar. “O Petit era nossa terapia”, lembra.”

 

 

Petit Paris

O que me intriga até hoje é o fato de não ter encontrado até o momento, nenhuma iconografia do tão conhecido bar e restaurante Le Petit Paris, ponto de encontro de eminentes jornalistas, escritores e políticos e onde muitos músicos brasileiros agora famosos iniciaram suas carreiras. Enquanto continuo em busca da tão esperada foto, transcrevo uma matéria jornalística, publicada em 7 de outubro de 1973, no Jornal do Brasil(?), relatando a demolição do prédio, reduto dos boêmios por tantos anos:

Petit é demolido, levando história de muita música

Alcebíades da Silva, um servente improvisado, que chegou há 10 dias do interior sem saber ler nem escrever, é a última imagem da vida, que, atuando também como vigia dos escombros, o que resta do prédio nº 139 da praia de Icaraí, onde está sendo demolido o restaurante Le Petit Paris, que viu crescer Sérgio Mendes, MPB-4 e se despediu de Ciro Monteiro.

O local foi adquirido por um grupo imobiliário que, embora não tenha ainda definido o que vai construir, agiu por força do progresso que invade a Zona Sul de Niterói. José Augusto Tanus – o Canela – o mais assíduo frequentador e ex-proprietário do Petit, guarda como lembrança um velho piano de Sérgio, um violão de Ciro “e a saudade do falsete de Agostinho dos Santos, companheiro de muitas noitadas.”

O restaurante Le Petit Paris, que já funcionou também como bar, boate e local de pocket-show, nasceu de uma iniciativa de dois comerciantes: Rubens Ferrah e o francês Raimond, no ano de 1957, transformando-se, logo no início, em ponto obrigatório de encontro de jovens moradores do bairro e, como encerramento de noite, dos boêmios, musicistas e compositores.

Passou a ser também local preferido por estudantes universitários, professores e políticos para debates e discussões dos assuntos da atualidade. Depois que o Brasil conquistou o Campeonato Mundial de 58, os jogadores que, até então frustrados, atuaram na Copa de 54, sobretudo Zizinho, passaram também a fazer ponto no Petit.

REVELAÇÕES

Sem mesa definida para participar dos papos, apesar de ser relacionado com todos os grupos, naquela época, um jovem apelidado por seus amigos de Serginho Bló-Bló tentava se definir na música popular, interrompendo, às vezes inoportunamente, muitas conversas com uma batida melódica, do tipo telecoteco, num piano muito pouco usado, num canto do restaurante.

Era o talento do Sérgio Mendes que já se revelava sem que ninguém pudesse definir as perspectivas de seu sucesso. Foi um período passageiro, porque alguns anos depois ele embarcava para os Estados Unidos levando a imagem de sua origem, um eterno jovem. Com ele seguiu o Tião, um baterista persistente.

OUTRO SUCESSO

Nem sempre nos papos sobre música popular os grupos chegavam a uma conclusão, como foi o caso dos componentes do Trio Itaipu, formado por três rapazes universitários – Gilberto, Gerardo e Rui – para promover serestas pela cidade. Rui queria uma vocalização mais moderna e se desligou do grupo, unindo-se a Waghabi, Miltinho e Aquiles. Surgia o quarteto MPB-4.

Já demonstrando algum talento, o conjunto vocal ainda fazia apresentações sem despertar interesse comercial entre os empresários cariocas que apareciam em Niterói. Somente após o primeiro contrato remunerado, para apresentações noturnas no Petit, foi que o MPB-4 deu o impulso inicial para o sucesso. Os jornalistas que frequentavam o restaurante cuidaram de  sua promoção. Até o cronista Sérgio Porto sugeriu a mudança de nome “porque parece mais prefixo de trem da Central”.

OUTRA FASE

Depois de passar por vários proprietários, o Petit teve, no período de 1969/70 uma fase ruim. Seu então proprietário, Roberto Lacerda, conhecido por Andarilho, não teve outra alternativa senão, através de Zizinho, conseguir a presença de Ciro Monteiro, quase que todas as noites, para atrair pessoas de todas as gerações.

O Formigão não tinha muito trabalho: era só sentar numa mesa qualquer e dizer seus sambas, ritmados numa caixa de fósforos. A casa voltou a encher e o movimento atraiu outros artistas, como o Agostinho dos Santos, Cláudia, Chico Buarque, Helena de Lima, entre muitos outros. O restaurante tornou a mudar de dono, mas Ciro Monteiro não deixou de frequentá-lo até seu fechamento, em dezembro do ano passado [1972].

UMA SURPRESA

Agostinho dos Santos, além de se apresentar cantando, periodicamente participava das peladas que os bares noturnos promoviam na areia da praia após o encerramento das atividades. Um dia ele levou ao Petit um moreno acanhado, mineiro do Chapadão, sem dinheiro e com medo do barulho e da poluição. Agostinho pagou-lhe o jantar e deu Cr$ 15 para ele alugar uma roupa a fim de se apresentar no Festival da Canção.

O cantor reuniu seus amigos num galpão nos fundos do restaurante para a apresentação de seu convidado, revelando que ele havia inscrito três músicas no festival. o caipira não queria cantar temendo que alguém roubasse suas composições. No dia do festival estourou: Travessia, Morro Velho e Maria Minha Fé. O convidado de Agostinho era Milton Nascimento.

O FIM

Já em meados do ano passado, o Canela, então proprietário do Petit, recebera uma notificação do dono do imóvel, Sr. João Martins dos Santos Filho, que havia sido feita uma transação no imóvel alienado ao grupo da Imobiliária Paz Limitada. Advertia que a sua desocupação teria de ser feita até o final do ano.

E foi. O prédio ainda ficou, até o início dessa semana abandonado, só restando a lembrança da boa época em que, como casa comercial recebeu a presença de tantas pessoas que se projetaram nacional e internacionalmente. Agora, os operários, colaboradores do progresso acabam de demoli-lo. No local tanto poderá surgir um grande supermercado como pode ser erguido mais um prédio para abrigar a demanda populacional que atinge o mais aristocrático bairro de Niterói.”

(Texto apresentado na reunião semanal do Rotary Club de Niterói Icaraí de 12/4/2017)

*Foto de capa: anúncio do Bar e Restaurante Le Petit no jornal Última Hora, de 9 de setembro de 1963)

 

Recorte do jornal com a matéria acima, datado de 7 de outubro de 1973.

 

Galeria
(Clique sobre as fotos para ampliar. Recortes de diversos jornais em diversas épocas.)