“Icaraí, sinhá moça moderna”

Série “Crônicas de Icaraí”

Quem diz Niterói, diz praia; e quem diz praia, diz Icaraí. Quem for à Cidade Sorriso e não vir Icaraí, ficará com uma impressão falha da cidade. Culpa não cabe a Icaraí: ela está ali mesmo, na ponta de um S, de ônibus ou “trolleybus”, a 10 minutos do Centro. Limpa, clara e hospitaleira. A onda é mansa, o mar é dócil, porque é mar de enseada, protegido pelo Morro do Morcêgo e pelo Forte Rio Branco. A areia é fina, “range” sob os pés. E a paisagem é uma pintura. Icaraí é a mais grata (e bela) tradição dos papa-goiabas. Agora de roupa nova, para receber os turistas, com a mesma simplicidade de sempre, e preparada até para os banhos de mar noturnos, pois – disso os niteroienses não abrem mão – é a praia mais bem iluminada do Brasil.

Texto de GUALTER MATHIAS NETTO
Foto de Hélio Passos
Texto publicado em janeiro de 1967 (com grafia da época)

(Fonte: Grupo de História de Niterói, Facebook, Acesso em 10/12/2017)

 

 

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“Cenas familiares”

Série “Crônicas de Icaraí”

(..)
Icaraí não tem postos de salvamento (tem apenas guarda-vidas espalhados ao longo da areia), mas o uso de marcar encontros criou os “pontos”, que são: Regatas (em frente ao C.R. Icaraí); Cassino (defronte ao Hotel Cassino Icaraí); Cinema (diante do Cine Icaraí); Presidente Backer (em face da rua do mesmo nome); Casa de Saúde ( em frente à Casa de Saúde Icaraí) e Canto do Rio (no fim da praia). Na faixa que vai do Regatas à Presidente Backer, concentram-se os banhistas oriundos da Zona Norte e de São Gonçalo; a Casa de Saúde é o “ponto” preferido pelos icaraienses genuínos e honorários – uma segregação espontânea, sem preconceitos.

Praia disciplinada, Icaraí tem locais determinados para a prática de futebol, vôlei e medicine-ball e policiais de calção estão vigilantes para que o entusiasmo esportivo não transborde os seus limites, exceção só permitida aos praticantes de frescobol.

Bem, a nova Icaraí tem calçadas de mosaicos e grandes postes com luz de mercúrio para embelezar o “footing” dos domingos e os banhos noturnos. O velho trampolim, que estava caindo aos pedaços e arriscando a vida dos banhistas, foi dinamitado e sepultado pelas águas. As inovações, contudo, não afastaram os resquícios conservadores das garotas, que não se deixam fotografar fàcilmente, no que são solidários os bonitões e as mamães.

Texto de GUALTER MATHIAS NETTO transcrito com a grafia da época
Foto de Hélio Passos (1966/1967)
Publicado em janeiro de 1967

(Fonte: Grupo de História de Niterói, Facebook, Acesso em 9/10/2016)

(Texto apresentado na reunião semanal do Rotary Club de Niterói Icaraí de 6/12/2017)

 

 

“O mar beija a praia com ternura”

Série “Crônicas de Icaraí”

Antigamente, a cidade chamava-se Vila Real da Praia Grande. Muito a propósito, aliás, Niterói é quase uma ilha, cercada de praias por quase todos os lados. E Icaraí é o carro-chefe dessa alegoria colorida que é a Long Beach cabocla. Uma Long Beach sem desfiles de beleza organizados, mas com grande densidade de beldades em maiô, de que Icaraí é o centro de gravidade ou o ponto imantado.

Icaraí é sal e é sol, e também é sul: fica na Zona Sul da cidade; mas como todos os caminhos levam a ela, de todos os pontos convergem garotas (e paqueras), até do Rio de Janeiro.

O mar, que em outras praias mete medo pela sua fúria, diante de Icaraí se amansa e se inclina para beijá-la. Nesse manso lago azul, tocadas pela brisa cheirosa, deslizam suaves, as velas, e latagões bronzeados e musculosos fazem correr os ioles desde o Clube de Regatas – porque Icaraí tem também o seu clube de regatas. Rápidas lanchas trazem, unidos por um cordão umbilical, os destemidos praticantes de esqui-aquático, em seus passeios tão emocionantes quanto os da aventura espacial.

Texto de GUALTER MATHIAS NETTO – transcrito com grafia da época
Foto de Hélio Passos 
Revista O Cruzeiro, 7 de janeiro de 1967

(Fonte: Grupo de História de Niterói, Facebook, Acesso em 10/12/2017)

“O esporte na Praia de Icaraí”

Série “Crônicas de Icaraí”

(…)
Mas nem tudo é maré-mansa no mar preguiçoso de Icaraí. No limite oeste da praia, onde ela começa pra quem vem do Centro, uma cama de pedras perturba o idílio da praia com o mar. E este responde, fazendo onda, que vai se quebrar nas pedras do Índio e Itapuca. Em frente a esta última, a rapaziada pratica o “surf”, e a miuçalha dos 10 aos 15 anos faz “jacaré”, com pequenas pranchas, que deslizam a alta velocidade por sobre o leito de pedras pontiagudas incrustadas de mariscos – verdadeiro faquirismo aquático, “roleta niteroiense”. Aliás, nesse capítulo das “socas”, Icaraí tem uma bossa: o mar-esqui, uma prancha redonda, como fundo de barril, capaz de atingir a última espuma das ondas.

Além dos esportistas, as pedras do Índio e Itapuca são muito procuradas pelos pintores; não há exposição de marinhas em Niterói em que não se vejam as indefectíveis… Afinal, a própria forma da praia sugere uma palheta de pintor. (…)

Texto de GUALTER MATHIAS NETTO – transcrito com a grafia da época
Fotos de Hélio Passos
Da reportagem de O CRUZEIRO, de 7 de janeiro de 1967

Surfistas em frente à pedra de Itapuca, 1966/1967
Esqui na areia da Praia de Icaraí, 1966/1967
Surf na Praia de Icaraí (próximo à Pedra de Itapuca) 1966/1967

(Fonte: Grupo de História de Niterói, Facebook, Acesso em 9/10/2016)

(Texto apresentado na reunião semanal do Rotary Club de Niterói Icaraí de 29/11/2017)

 

 

“O francês do Petit”

Por Emmanuel de Macedo Soares*

“Lá pelos idos de 1964, quando o Petit Paris era uma ilha de felicidade no meio das sombras e tristezas milicorrevolucionárias, pousou de repente nas históricas mesas da varanda um francês muito falante e meio amalucado, que logo conquistou a praça com sua paixão pela bossa nova.

Tinha um jipe, ou alguém tinha um jipe que alta madrugada fazia a linha Icaraí-Itaipu carregando 10 ou 15 passageiros não necessariamente sóbrios para assistir ao inigualável espetáculo do nascer do sol e tomar o café da manhã na colônia de pescadores.

Quando foi expulso do finésimo e decadentíssimo Hotel Cassino Icaraí, mudou-se de vez para a colônia, sem nunca deixar de assinar o ponto noturno no Petit.

De vez em quando tirava uma de amigo de Tom, Vinicius, Baden e outras vacas sagradas, mas a gente levava em conta de sua falastronice gaulesa e a conversa continuava entre dois beliscos de provolone e quatrocentos chopes.

Lá um dia o francês revelou seu segredo: estava pesquisando sobre MPB e voltaria à França para fazer um filme. Ninguém acreditou, é claro, mas apesar disso teve uma festa de despedida em alto estilo, que se estendeu dos jardins de Icaraí às areias de Itaipu, na última viagem do valente e saudoso jipinho.

Passado um tempo, amanheceu na fachada do falecido Cinema Icaraí, com aquelas gigantescas letras vermelhas, o anúncio do filme “Um Homem e uma Mulher”, nome tirado de uma canção de sua autoria, das muitas que compôs. Pierre Balouh morreu em 28 de dezembro de 2016, no sossego de seus 82 anos, numa clínica de Paris. Os obituários dirão de seus sucessos, na música e no cinema, mas para nós será sempre o francês do Petit.”

* Publicado no grupo “História de Niterói”, no Facebook, em 2 de janeiro de 2017. 

pbarouhPierre Barouh (Paris, 19 de fevereiro de 1934 – Paris, 28 de dezembro de 2016) foi um compositor e ator francês. 
[…] Barouh também dirigiu um documentário sobre os primórdios da bossa nova, “Saravah”, em 1972, além de outros três filmes. Ele trabalhou como ator em 20 filmografias, o último em 2010, “Le Marais Criminels”.

* Capa: Recorte do cartaz francês do filme “Um homem e uma mulher”

(Texto apresentado na reunião de 25/1/2017)

 

 

“Icaraí – A praia democrática”

Dentre os inúmeros materiais antigos – textos e iconografia – encontrados na internet, me deparei com essa reportagem, que foi publicada na Revista “O Cruzeiro”, em 30 de março de 1963. Está sendo reproduzida com a grafia da época:

Icaraí – A praia democrática

Por José Cândido de Carvalho*

Entre o mar e o cimento, numa paisagem feita por Deus, com areia, talento e conchas, vive Icaraí. Seu retrato já percorreu o Mundo, a bordo de cartões postais. Por isso mesmo, ela já faz blague quando dizem (sem nenhuma razão) que a melhor coisa de Niterói é a visão do Rio.

Num concurso de águas, de águas azuis, Icaraí nem precisava desfilar. Ganhava fácil, sem mesmo lançar mão de suas ilhas, que têm nomes para novela de pirata: Pedra do Índio, Cardos, Boa Viagem. Antigamente Icaraí tinha uma sucursal, espécie de linha auxiliar de seus areais: a Praia das Velhas. Estão a ver os senhores que era local para senhoras redondas e austeras, tipo quatro por cinco, que tomavam banho de coque e “pince-nez”. O bondinho voava a 10 quilômetros por hora. As famílias olhavam Icaraí, debruçadas em janelas de azulejos. As chácaras e jardins forneciam, de graça, os perfumes mais variados, desde o jasmim ao sabugueiro, da Flora Medicinal. Era um bairro manso, de funcionários e majores da Guarda Nacional, de casas amplas, onde meninas de tranças, de noite, dactilografavam de piano valsas e polcas. Foi em dias dêsse ingênuo mundo que o Comendador Barbalho, dono de um palacete no Canto do Rio, ao ver o primeiro bisavô do atual biquíni, uma peça listrada no meio da perna, coçou a cabeça e disse: “- Veja que falta de vergonha. Calção de banho no joelho!” Era 1900.

Até que um dia a “picareta do progresso” comprou casa em Icaraí. O primeiro sobradão de azulejos (uma beleza!) foi demolido. Um urbanista, aí por volta de 1940, diante da montanha de concreto que subia, botou apito na bôca: “-Socorro! Vão matar Icaraí!” Ninguém deu ouvidos ao alarmado urbanista. Os edifícios continuaram subindo. Adeus pensões familiares, onde o hóspede tinha direito a cadeira de balanço e perfume de jasmim! Adeus casas de comércio de nomes brasileiros: Bazar Almeida Estrêla , Padaria das Famílias! Só uma coisa não mudou: a praia. Com o tempo, ganhou um par de palmeiras e um trampolim. E assim, entre o mar e o cimento, vai vivendo Icaraí. Vivendo e posando para cartão postal, que é o Prêmio Nobel das praias.”

 

*José Cândido de Carvalho nasceu em Campos dos Goytacazes, em 5 de agosto de 1914 e faleceu em Niterói, em 1 de agosto de 1989. Foi um advogado, jornalista e escritor brasileiro, mais conhecido como o autor da obra “O coronel e o lobisomem”.

Formou-se em Direito pela Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, em 1937, mas abandonou a profissão no primeiro caso.

Seu primeiro romance foi “Olha para o céu, Frederico!”, publicado em 1939 pela Editora Vecchi.
Mudando-se para a cidade do Rio de Janeiro, no bairro de Santa Teresa, passou a trabalhar no jornal “A Noite”.
Foi redator no Departamento Nacional do Café, onde ficou até 1942, quando a convite de Amaral Peixoto (interventor no Estado do Rio) foi dirigir o jornal “O Estado” e passou a residir em Niterói.

A partir de 1957 foi trabalhar em “O Cruzeiro”, por cuja editora publicou em 1964 seu segundo romance, “O coronel e o lobisomem”, verdadeiro best seller com mais de cinquenta e cinco edições até hoje.

Em 1970 assumiu como diretor da Rádio Roquette-Pinto, tendo passado em 1974 a diretor do Serviço de Radiodifusão Educativa do MEC. Em 1974 foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira 31. Entre 1976 a 1981 foi presidente da Funarte.

Também escreveu obras infanto-juvenis, sendo a mais famosa delas “Gil no Cosmos”.

Continuou colaborando em diversos jornais até poucos dias antes de sua morte, quatro dias antes de completar 75 anos. Quando morreu trabalhava em seu terceiro romance, “O Rei Baltazar”, que deixou inconcluso.

(Fonte: Wikipedia, acesso em 6/11/2016)

* Foto: Praia de Icaraí, foto da revista “O Cruzeiro”, 1963, sem indicação de autoria.

(Texto apresentado na reunião de 22/2/2017)