“No meu tempo, era Arthur Bernardes”

O Colégio Estadual Joaquim Távora – conhecido entre seus alunos como “Cejota” – é uma das instituições de ensino localizadas no interior do Campo de São Bento. O prédio, que ocupa atualmente, foi construído na década de 1950 com características modernistas.

A seguir, transcrevemos, com a grafia da época, uma crônica de Lúcia Benedetti* sobre o antigo Grupo Escolar Joaquim Távora, chamado de Arthur Bernardes, publicada em 27 de março de 1953:

“Sim, no meu tempo, era Arthur Bernardes. Usávamos uma saia azul marinho pregueada e uma blusa branca, com as iniciais do colégio na passadeira da gravata, também azul marinho. Éramos muitos. Os meninos com suas calcinhas curtas e o blusão branco, carregando a penca de livros e a eterna perseguição da molecada que não podia nos vêr sem gritar “Abraços e beijos!” Aquele “A. B.” gravado na blusa era o nosso tormento e a nossa glória. Sim, porque havia o pessoal do Balthazar Bernardino, que com os dois “BB” na gravata, passava muito pior que nós. Eram saudados com “Bestas e Burros!” e que deu margem a muita briga, muito olho arroxeado, muita pedrada, castigos e reclamações sem conta.

Hoje, me parece, chama-se Grupo Escolar Joaquim Távora. Não sei se tem apelido. Mas é o mesmo colégio, imaginado por uma inteligência privilegiada e servida por um corpo docente magnífico. Uma escola primária plantada no meio de um parque, o mais lindo que conheço, o famoso Campo de S. Bento, em Niterói. Tão inteligente foi a idéia, tão adequada a localização da escola, que no meio de tanta coisa errada, é uma felicidade enorme olhar os pavilhões do colégio no meio dos bosques e a criançada debaixo das árvores amigas. Quando, uma vez, em Nova Iorque, expliquei a uma jornalista que me entrevistava, que havia feito meu curso primário numa escola ao ar livre, debaixo das árvores e ouvindo os passarinhos, ela ficou entusiasmada e prometeu fazer um artigo aconselhando aos americanos essa inovação para os cursos de verão. Não sei se fez. Já faz muito tempo tudo isso, até mesmo essa entrevista é antiga. Naquele tempo, o meu colégio tinha um problema. E verifico que o problema também é antigo, porque êle subsiste até hoje.

Ora, acontece que o famoso colégio ao ar livre, é o sonho e a ambição de tôdas as mães. As classes ficam dentro de bosques, armadas com arteiras portáteis, muito leves e cômodas. O benefício que qualquer criança recebe, estudando uma tarde inteira ao ar livre, é incomparável. Crianças anêmicas, revelam ao fim de algum tempo, um lucro considerável na saúde. O problema do meu colégio é êsse. Todo mundo quer ter seus filhos lá. Mas, acontece que nem todo dia é dia de sol, graças a Deus. E quando desaba uma chuva repentina, as crianças ficam sem abrigo. Os pavilhões existentes, naquela época, não comportavam nem metade dos alunos. Atualmente não comportam nem a quinta parte.

A diretora, no meu tempo, chamava-se Lídia Benevides. Era uma moça cultíssima, encantadora, de grandes olhos azuis. olhos que estavam sempre procurando nuvens no céu e sempre preocupada com aguaceiros. Atualmente a diretora chama-se Dona Alzira. Também seus olhos, doces e castanhos vivem assombrados com a chuva. Seu coração, como o coração de Dona Lídia, e de tôdas as que a precederam, clama por uma ajuda. É preciso que as crianças tenham mais alguns pavilhões e que fiquem ao abrigo das intemperies. Um dia de chuva na vida de um colegial não perturba muito. Porém, em Niterói, quando dá de chover, às vezes emenda semana com semana até fazer um mês. São mil e quinhentas crianças apelando aqui, através de uma antiga aluna. Mil, quinhentas e uma vozes, gritando “precisamos de ajuda!”. Sim, porque tanto faz que seja Arthur Bernardes ou Joaquim Távora, continúa sendo o mais belo monumento que o govêrno fluminense jámais erguei à infância. Uma escola que é o orgulho e o exemplo da pedagogia moderna em qualquer quadrante do mundo…”

E aqui está o recorte do jornal com a crônica:

cejota-cronica-de-lucia-benedetti-27-03-1953

* Lúcia Matias Benedetti Magalhães nasceu em São Paulo, em 1914, e faleceu no Rio de Janeiro, em 1998. Estudou no “Gymnasio Bittencourt Silva” em Niterói e frequentou, em 1932, a Faculdade de Direito de Niterói, mas optou por lecionar em escolas. Escreveu crônicas no jornal “A Noite” sobre incidentes e experiências vividas com seus alunos, numa coluna intitulada “Diário de uma Professorinha”. Nesse jornal carioca conheceu seu futuro marido, o jornalista, dramaturgo e escritor, Raimundo Magalhães Júnior, com quem se casou em 1933.
Em 1942, o casal se muda para os EUA, onde Magalhães Júnior passa a trabalhar com Nelson Rockefeller e Lúcia se mantém como correspondente para jornais brasileiros, permanecendo naquele país até 1945.

Nessa época, escreve seu primeiro romance.
Lúcia Benedetti é tida como precursora do teatro infantil no Brasil, com a estreia, em 1948, da peça “O Casaco Encantado”, com a qual lançou as bases do que é hoje considerado dramaturgia infantil brasileira, buscando, em todos os seus espetáculos para essa faixa de público, que eles alcançassem a mesma qualidade cênica e literária das apresentações voltadas para adultos. Dentre as principais peças teatrais está “A Menina das Nuvens”, adaptada para ópera em três atos por Heitor Villa-Lobos.
Lúcia Benedetti é mãe da carnavalesca Rosa Magalhães.
(Fonte: Wikipedia)

*Foto de capa: o colégio Joaquim Távora, sem data, Manuel Bastos.

(Texto apresentado na reunião de 7/12/2016)

 

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