As ruas Octávio Kelly, Álvares de Azevedo, Fagundes Varela e Belisário Augusto

A Rua Octávio Kelly originalmente se chamava Rua Barros. Recebeu seu primeiro nome de acordo com edital da Câmara Municipal publicado em 17 de julho de 1841, por ocasião da implantação do Plano de Arruamento. Posteriormente, foi rebatizada como Rua Prefeito Ferraz e, mais recentemente, recebeu a denominação atual.

A Rua Álvares de Azevedo (antiga Rua da Independência) conta, hoje, entre as mais importantes vias de passagem de Icaraí para outros bairros. No entanto, obteve a atual configuração ao ser demolido um outeiro, onde se localizava a Igreja N.S. das necessidades. Havia ali, até pouco tempo, fazendo esquina com a Praia de Icaraí, a Pensão Aimoré, no local do atual Cinema Icaraí. no lado oposto encontrava-se uma quadra de tênis com pequena manufatura de raquetes. Hoje situa-se ali um dos primeiros edifícios do bairro.

A Rua Fagundes Varela surgiu a partir do prolongamento da Rua Tiradentes realizado pelo Prefeito Pereira Ferraz. O material retirado do corte foi utilizado no aterro do mangue de São Lourenço.

Já a Rua Belisário Augusto, transversal à Praia de Icaraí, representa um trecho da antiga Rua dos Legisladores, que também incluía a atual Rua Domingues de Sá.

Analisando-se o traçado do bairro no mapa da cidade, verificamos que essas duas ruas constituem uma reta, apenas interrompida pelo Morro da Pedreira (ou Morro do Cruzeiro). A intenção, na época da implantação do Projeto de Arruamento certamente foi a de demolir o obstáculo, o que acabou não acontecendo.

 

 

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Dr. Paulo César

Paulo César de Andrade, filho do Major Paulo César de Andrade e D. Rita Cândida da Mota César de Andrade, nasceu em Itaboraí, Província do Rio de Janeiro, em 20 de agosto de 1848. Recebeu carta de bacharel em Letras pelo Imperial Colégio D. Pedro II e se formou na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro em 1872, distinguindo-se nas duas pela inteligência e pelo estudo.

Iniciou a sua clínica em Niterói e a manteve até falecer. Ingressou na política pelo Partido Liberal como vereador, em seguida, como deputado à Assembléia Provincial e constituinte da Assembleia em 1891. Muito ativo, ocupou cargos de grande responsabilidade também na vida empresarial (Companhia Cantareira e Viação Fluminense, entre outras). Comparecia a reuniões esportivas e sociais (Club de Regatas Nictheroyense, Hipódromo da Guanabara, este em São Gonçalo, e Jockey Club) e teve destacada atuação durante a epidemia de varíola em Niterói (1886). Gozava de muito prestígio entre seus colegas médicos (Miguel Couto, Tavares de Macedo entre outros) e grande popularidade em todas as camadas sociais por ter sido prestimoso médico e por exercer a sua profissão com dignidade.

Não foi à toa que seu súbito falecimento no dia 12 de março de 1899 – portanto aos 51 anos incompletos – causaria geral consternação. O corpo foi velado em sua residência, na Rua do Calimbá 19, rua que leva, atualmente, o seu nome.

A Rua do Calimbá consistia num trecho do Caminho do Calimbá que partia do mangue de São Lourenço, passava pelo Lomelino, encontro das atuais ruas Marquês do Paraná, Miguel de Frias, Dr. Paulo César e Avenida Gov. Roberto Silveira, e seguia em direção à antiga Fazenda Boa Vista. Após a morte inesperada do Dr. Paulo César, a Câmara niteroiense resolveu rebatizar o logradouro para reverenciar a sua memória, dando-lhe o nome do destacado médico.

(Publicado no boletim semanal do Rotary Club de Niterói Icaraí, de 22/5/1996, e atualizado em nov/2017)

 

 

Os ingleses em Icaraí

NOMES DE logradouros, como Mr. Cunditt (Centro), Guilherme Briggs (São Domingos) e Greenhalgh (Icaraí) ou de instituições, como All Saints Church, Nictheroy Rest Home ou, ainda, de moradores, como George Cox, Abbott, Causer, Moore remontam à importância que a colônia britânica já teve em Niterói. De fato, os ingleses tinham interesses muito grandes em Niterói e vinham se destacando na cidade, desde tempos bem remotos.

Devido ao elevado número de membros, a colônia possuía sua própria escola, seu recolhimento para idosos, sua igreja e suas agremiações, além de casas comerciais e outras, como a Western Telegraphic Co. (atual prédio da Escola de Arquitetura da UFF) e a Leopoldina Railway, que ficava na Estrada Fróes.

Inauguração da sede do Rio Cricket, em 1931. Foto: autor desconhecido.

The Rio Cricket and Athletic Association, na Rua Fagundes Varela, foi fundada por George E. Cox, em dezembro de 1897, seguindo os moldes da associação fundada por ele no Rio, o Rio Cricket Club. A atual sede do clube, inaugurada em 1931, composta pelo prédio e pela bela faixa de terreno gramado à sua frente, pertencem a 12 acionistas: pessoas físicas de nacionalidade inglesa e pessoas jurídicas, a Wilson Sons, Shell do Brasil S.A., Cia. Souza Cruz, Bank of London e British Commonwealth.

Outros clubes fundados por ingleses foram o Fluminense Football Club, em 1902, o Yacht Club Brasileiro e o Rio Yacht Club, em 1914.

A igreja anglicana-episcopal All Saints Church, situada na Rua Gavião Peixoto, bem em frente ao Campo de São Bento, foi construída no estilo neogótico inglês. Sua pedra fundamental foi lançada em 1921 e sua consagração ocorreu no ano seguinte.

A Igreja Anglicana em dois tempos: em 1922, ano de sua inauguração, e no seu aspecto atual.

     

Atualmente, a colônia britânica está bastante reduzida, pela falta de renovação, pelo retorno de membros à sua terra natal ou, ainda, pelo fato de seus descendentes serem absorvidos pela comunidade não britânica. Os poucos ingleses que ainda residem em Niterói estão dispersos, não mais representando a importância que possuíram anteriormente.

(Publicado no boletim semanal do Rotary Club de Niterói Icaraí, de 15/5/1996 e atualizado em março/2017)

*Foto de capa: the Icarahy Stakes, jogos comemorativos pela coroação do rei Jorge V, da Inglaterra, em 1910. Foto: Autor desconhecido, via Olhar Nictheroy.

 

 

Lopes Trovão e Mariz e Barros

José da Silva Lopes Trovão foi jornalista e político brasileiro, ocupação que o marcou no cenário brasileiro. Nasceu em Angra dos Reis, em 1847. Formou-se em Medicina pela Faculdade do Rio de Janeiro, em 1875, e participou, ainda como estudante, de comícios republicanos. Destacou-se por sua participação na propaganda da República. Foi deputado à Constituinte e senador na vaga de Saldanha Marinho. mais tarde afastou-se da vida pública, ocupando o cargo de oficial do Registro de Hipotecas. Faleceu no Rio de Janeiro em 1925.

Herói da Guerra do Paraguai, Antônio Carlos de Mariz e Barros, nasceu no Rio de Janeiro, em 1835, filho do Alte. Joaquim José Inácio, Visconde de Inhaúma. Seguiu para a campanha do Paraguai como guarda-marinha, distinguindo-se na tomada de Paissandu, em 1865. Participou do duro combate nas “barrancas do Rio Paraná, entre Itapiru e Passo da Pátria”, já como capitão-tenente, no comando do encouraçado Tamandaré. Entre as muitas baixas brasileiras, Mariz e Barros foi ferido mortalmente, vindo a falecer em 1866, no hospital do sangue ao ser-lhe amputada uma perna.

As ruas que levam o nome das duas figuras proeminentes da História do Brasil, são importantes vias de escoamento de todo o trânsito de Icaraí. Situam-se perpendicularmente à praia, fazendo a ligação desse bairro com o de Santa Rosa, terminando ambas na Rua de Santa Rosa.

A Rua Lopes Trovão (antiga Rua do Fundador) possui vários centros comerciais nas proximidades da Rua Gavião Peixoto, Em seu trajeto encontra-se o Campo de São Bento e, mais à frente, o Estádio Caio Martins, lado oposto à Rua Presidente Backer.

A Rua Mariz e Barros (antiga Rua das Estrelas) caracteriza-se pelos inúmeros prédios residenciais de deslumbrantes fachadas e pelos vários estabelecimentos de ensino e consultórios. O Instituto Vital Brazil iniciou ali as suas atividades numa casa, fazendo esquina com a Rua Gavião Peixoto.

(Publicado no boletim semanal do Rotary Club de Niterói Icaraí, de 8/5/1996, e atualizado em março/2017)

 

 

Presidente Backer

Alfredo Augusto Guimarães Backer é mais um importante personagem da História do estado do Rio de Janeiro eternizado nos logradouros de Icaraí. Foi o 6º presidente do Estado, da fase constitucional (Constituição de 1891) do Período Republicano. Nasceu em Macaé, em 1851, onde passou sua infância, fez seus estudos primários e se diplomou em Comércio. Fez os cursos preparatórios em Niterói. Formou-se em Medicina pela Faculdade do Rio de Janeiro, profissão que exerceu durante muitos anos após o retorno à sua cidade natal. Fundou, em Macaé, o Partido Republicano. No novo regime foi constituinte fluminense em 1892, e deputado estadual repetidas vezes, até 1894. Sucedeu Nilo Peçanha à frente do governo estadual, do qual foi o secretário geral do Estado. Em 1906 foi eleito para um período de quatro anos (até 1910), de acordo com a recente reforma constitucional.

Durante o seu mandato, Niterói recebeu todo o apoio para realização de obras de grande vulto. Segundo fontes, por intermédio do governo municipal de João Pereira Ferraz promoveu a abertura da Alameda São Boaventura, a construção do cais de Icaraí e do Gragoatá e da ponte para a atual Rua Joaquim Távora; a Praia das Flexas, o prolongamento da Rua Tiradentes (trecho da Rua Fagundes Varela), utilizando o material retirado no aterro da antiga Praça Visconde do Abaeté (Campo de São Bento); a construção do prédio da Prefeitura, bem como o alargamento da Rua Marquês do Paraná, entre inúmeras outras obras.

Rua Presidente Backer, em 1911(?). Antônio Parreiras.
Rua Presidente Backer. 1936

A Rua Presidente Backer (antiga Rua da Sagração) foi implantada por intermédio do Plano de Arruamento de 1840-41. Atualmente, é considerada uma das principais artérias no trânsito de Icaraí. Transversal à praia, essa via termina na Rua Santa Rosa, fazendo a ligação entre os bairros de Icaraí e Santa Rosa e também para quem vai seguir pela Rua Noronha Torrezão. A via foi retratada em diversos quadros, em particular nas obras do pintor Antônio Parreiras, antes ainda de ser pavimentada.

Localiza-se, na Rua Presidente Backer, o Estádio Caio Martins, a praça de esportes mais significativa de Niterói, e vários estabelecimentos comerciais próximos ao cruzamento com a Rua Gavião Peixoto.

(Publicado no boletim semanal do Rotary Club de Niterói Icaraí, de 24/4/1996, e atualizado em março/2017)

“Icaraí no final do século XIX”

A história de uma cidade ou de um bairro como o caso aqui focalizado só pode ser feita através de documentos ou por meio de relatos de observadores que em uma determinada época viveram na região ou a visitaram com agudo senso de observação. O bairro de Icaraí é novo, pois recebeu urbanização em época mais recente que as povoações primitivas de São Domingos e Praia Grande.

No estudo do passado de Icaraí nos reportamos ao magnífico livro de Vivaldo Coaracy, “Todos contam a sua vida”, que morou, quando menino, na região aqui estudada. Diz ele “entre a Volta da Itapuca e as fraldas do Cavalão, a praia se desdobrava larga, branca e deserta. Ao longo de toda a sua extensão. existiam apenas cinco ou seis casas separadas uma das outras por longos tratos de restinga”. Adiante, ainda frisando o caráter selvagem do local, fala em “restinga de pitangueiras e cajueiros, de palmeiras iris e iúcas pontiagudas de camboins de lenho vermelho e gravatás espinhosos, de arriosas e coroatás, de ingazeiros e taquaris, de pitas e cardos, de uma infinita variedade de cactos”. Comentando o aspecto humano do bairro, diz o citado autor: “Icaraí era um bairro isolado encerrado em si mesmo e sem contiguidade imediata com outras zonas povoadas”. Chama a atenção para os habitantes que, sendo raros, se uniam com uma grande solidariedade.

Esse bairro teve as ruas traçadas no papel e batizadas com nomes interessantes ao serem abertas no terreno. Formavam elas, como se costuma dizer, um tabuleiro de xadrez, que até hoje podemos observar, mas seus nomes o progresso infelizmente não conservou. Niterói ainda abriga inúmeros habitantes que se recordam dos nomes primitivos das ruas e que passamos a reproduzir em homenagem à história da cidade que se aproxima dos quatrocentos* anos.

Rua da Constituição — Miguel de Frias
Rua da Independência — Álvares de Azevedo
Rua da Aclamação — Pereira da Silva
Rua da Sagração — Presidente Backer
Rua do Fundador — Lopes Trovão
Rua da Regeneração — Otávio Carneiro
Rua da Estrela — Mariz e Barros
Rua dos Legisladores — Belisário Augusto
Rua Cruzeiro — Oswaldo Cruz

A Rua Comendador Queirós já foi aberta com esse nome, em terras do referido Comendador.

Rua Santa Bebiana — Joaquim Távora

As ruas paralelas à praia receberam os nomes de:

Rua Vera Cruz — Moreira César
Rua Cabral — Tavares de Macedo
Rua do Sousa — Gavião Peixoto

A Rua Mem de Sá foi aberta com esse nome e encontramos referências a ela como “Mendo Sá”. A Avenida 7 de Setembro chamava-se primitivamente Adicional, e depois sei nome mudou para Reconhecimento.

(*Fonte: “Páginas de História Fluminense”, de Thalita de Oliveira Casadei, ed. 1971)

 

Foto de capa: Icaraí no início do século XX, e abaixo, detalhe do mapa de 1914.

Mapa de 1914
Mapa de 1914